Trabalhador brasileiro

Chega um momento onde meninos viram homens.

Felizmente esse momento ainda não chegou para mim e eu posso ter minha infância feliz como todo mundo quer. Mas também chega uma hora onde a sua diversão vai ficando mais cara (como aquela velha história da semelhança entre peito e autorama, ambos feitos para criança, mas que só adulto brinca), e chega uma época também que seu pai julga que por você só estudar 15 horas diárias você é vagabundo e merece a forca. Em suma, chega uma época que você tem que apelar para outras formas de ganhar dinheiro. Uns traficam drogas, outros cafetinam, eu peço dinheiro a minha tia.

Mas ela, sacana como todo adulto, cobra por essa ajuda financeira. Essa ajuda é sempre em forma de trabalho. Então, eu já me acostumei a, sempre que puder, ajudá-la no que ela precise para quando eu precisar eu ter esses argumentos para contra-argumentar a negação dela.

Então, como no verão eu tenho o dia todo livre, eu ajudo ela o dia todo, para minha tia me dar dinheiro no final do mês e eu poder comprar minhas futilidades (livros de rpg, dados para rpg, camisetas idiotas, e, quando a futilidade chega ao extremo, cash para PW). Assim, no verão eu trabalho de “oreia seca”.

O trabalho de um “oreia-seca” é simples. Existem pessoas que causam problemas, assim como existem pessoas que resolvem problemas. Um oreia seca não é nenhuma dessas duas. Ele não resolve os problemas, ele é só um instrumentos para fazer as partes chatas de resolver problemas, como pegar fila de banco, ir cobrar os clientes, fazer as entregas, ouvir a ladainha sabendo que não pode fazer nada, e atender os possíveis/futuros clientes.

Pra mim, essa última é a mais fascinante das partes de ser um oreia seca. Ser vendedor é único, é maravilhoso, é garboso, é adjetivado, turbinado e encochado. Favor ignorarem o encochado.

Creio eu que “atender clientes” tem sido meu único contato próximo com seres humanos, visto que o outro tipo de contato que eu tenho são eventuais conversas diárias contraditórias com Laís/Higór e conversas com amigos in-PW. Acho que por isso ele me é tão fascinante.

Ser vendedor é legal pois você pode ver a cara de todo tipo de nóia que chega nessa dobra intergaláctica esquecida que eu chamo de “cidade-natal”. Tem as coroas, que por mais que paguem de teen sabem o nome de todos os apetrechos de decoração que tem aqui na loja; tem as meia-idade, que por mais que queiram pagar de teen (mais do que as coroas), tem uma aspiração sobrenatural a saber o nome dessas coisinhas; tem as paty ricas, que não sabem o nome de nenhuma das coisas, mas acham que tudo é chique e querem levar tudo; tem os velhos barrigudos, que quando não estão tentando tirar suas mulheres da aborrecente rotina de compras para passar a uma excepcional rotina de cervejas, estão disputando a única cadeira reservada aos clientes daqui da loja; tem os coroas enxutos, que tem pretensão de fazer uma casa bem… caseira, por assim dizer, e se interessam também por essas coisas; tem os lek stronda, que não querem porcaria nenhuma do que vende aqui, mas estão procurando um presente para mãe/tia/avó/periquita/kalopsyta/mula-sem-cabeça/paca-tatu-cutia-não, e acham que por eu ser jovem, homem e me vestir no básico camisetão-shortnojoelho-havaianas, eu vou dar descontos astronômico para eles e querer ser amiguinho deles para todo o sempre.

O que ferra nessa profissão de vendedor é o profissionalismo. Profissionalismo é aquele anjinho sacana que fica te regrando quando você quer fazer alguma coisa que não pode. Profissionalismo é não olhar pro decote da sua cliente, mesmo que o conteúdo do soutien da moça esteja pulsando para fora, ela esteja solteira e olhando pra você. Profissionalismo é não dar bola para aquela menininha bunitinha que tá olhando pra você de cima a baixo, com a boquinha aberta, apenas porquê o pai dela está comprando na loja. Profissionalismo é dizer “Boa noite!” pro cliente mesmo quando a noite tá uma merda, e você só queria dizer “vai comprar? Senão nem me enche a porra do saco!”. Tudo isso mantendo um sorrisão de orelha a orelha  na face.

Esse por sinal é outro ponto de extrema atenção. Sorrir é um saco. Ainda mais quando são 23:30, e você tá na loja desde meio dia, cansado, suado, com vontade de tomar um banho, comer alguma coisa e entrar num par de pernas. E pior ainda quando você sabe que não vai ter um par de pernas abertas pra você quando chegar em casa. Aí sim é que você não tem a menor vontade de sorrir. Mas tem que mantê-lo. Você começa a pensar em suas conquistas, começa a pensar que pegou 8x no PW, e fez aquela arma fodona que você tava juntando item e dinheiro para forjar desde o nível 70. Aí o sorriso fica natural, espontâneo, lindo. Mas aí você lembra que aquilo é só o começo, e que ainda falta forjar o resto do teu set, e comprar pedra, e vê que você só vai conseguir ficar forte comprando cash. E lembra também que você não tem dinheiro, e mesmo que tivesse teu dinheiro ia ter outro fim. Aí tua vontade é de mandar o cliente se foder mesmo e continuar com a cara séria. Mas teu salário no fim do mês depende dele, então você sorri, mesmo que falsamente mas sorri. Com aquela cara de boneco assassino, mas sorri.

Então, meu dia como vendedor chega ao fim, menos de vinte minutos me separam da cama, mas ainda tem que fechar o caixa. E o caixa dá diferença. Aí seus escassos e cansados neurônios são postos pra tabalhar e tentar lembrar de 20 vendas, alguma que deu diferença de 1 real, ou algum muleque imbecil que mexeu no caixa, e pegou dinheiro sem avisar. Aí você tem vontade de matar quem tocou um átomo da mão no caixa. Mas aí você lembra que átomos não se encostam realmente por causa da repulsão das eletrosferas, então só quer dormir. Diz que entei vai chegar e vai salvar todo mundo, que tá tudo bem agora. E tudo fica realmente bem.

É, ser vendedor é uma droga, mas é fascinante.

E que Nimb role bons dados para você!

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