O primeiro dia de aula

As emoções começam no domingo.

No dia anterior a ele, quando se arruma o material, separa-se o dinheiro do lanche. Cadernos, canetas e mochila exalando o cheiro de papelaria, e absorvendo o do novo dono. Expectativas quanto às pessoas novas e às velhas: aos garotos, se há garotas novas, ou se as veteranas continuam em seu lugar; às, se há meninos mais limpos, menos nojentos, e com mais cérebro, ou se terão a má companhia dos antigos por mais um ano.

No Grande Dia, acorda-se mais cedo, toma-se um banho mais demorado, ajeita-se melhor, o café é reforçado, e sua mãe até acorda pra prepará-lo. Pega-se uma camisa diferente, o sapato mais novo, inaugura-se o jogo de maquiagem da sua avó. Estando tudo perfeito, sai-se de casa com a esperança de mudanças de comportamento, atitudes, pensamento, de uma nova personalidade talvez.

Chega no portão com nariz em pé, todo orgulho e boa impressão, tentando chamar a atenção para si, ou apenas mostrar sua melhor face, seu jeito mais amigável. Olha ao redor discretamente, percebendo os novos alunos. Um cumprimento breve a um antigo amigo, uma saudação a um professor. Reencontra-se então os velhos amigos na porta da escola ou no pátio principal, colocando o papo em dia, contando de suas viagens de férias, ou de suas idas à praia.

Sinal bate, entra-se na sala, reconhecendo novas cadeiras ou um quadro diferente, algum detalhe de reforma. Com a esperança de mudança, senta-se num lugar diferente, mais próximo do quadro, pra tentar prestar mais atenção na aula. Professor chega, apresentações são feitas. Escola de origem, cidade de origem, idade e nome, são requisitos fundamentais. Os mais engraçados são logo distinguidos dos mais tímidos. É nesse momento que se aproveita pra descobrir o nome da garota nova ou do rapaz recém chegado, ou saber se este (a) vale a pena o contato.

Contraditório ou não, aula no primeiro dia de aula, não existe. Os professores se apresentam, sendo novos ou não, e o máximo que fazem é passar um cronograma com as atividades a serem realizadas no decorrer do ano, liberando os alunos mais cedo.

Reunião no salão principal ou auditório, com o diretor dando boas-vindas aos antigos e novos alunos, encourajando-os pra mais um ano de estudos. Novos professores são apresentados em formalidade, falando pequenas palavras que, por serem poucas, não demonstram totalmente sua personalidade em sala. Instinto de aluno.

E o dia termina com uma alegria e novidades pra digerir e contar.

Mas tudo isso se você estudar em um colégio normal. No IFET, não é assim.

No domingo, você resmunga de ter aula às 7 da manhã do outro dia e de ter que acordar mais cedo, quando na verdade seu dia só começa depois das 10:00. Você não separa roupa, vai com o mesmo caderno e a mesma mochila com cheiro de poeira e manchas do chão em que ficava todos os dias na sala. Vai dormir com expectativas sim: de que as aulas comecem e terminem logo, pra que você possa acordar tarde novamente. Na verdade, com a expectativa de que haja algum problema que impessa você de ter aula por um longo período de tempo.

De manhã, você acorda atrasado, tomando um compo de leite, sem tomar banho nem arrumar os cabelos. Sua mãe continua dormindo, não se importando se você vai ou não à escola. Quando consegue sair de casa, olhos pesados, cabeça baixa pedindo cama, não possui a mínima esperança de mudança de atitudes, mas sim a de ter que encarar mais aulas chatas, professores chatos, e com o único desejo de voltar pra casa e dormir por toda a tarde, na tentativa de recuperar o sono perdido entre as 6:30 e 12:00.

Ao chegar na escola, você se depara com seus velhos colegas, com as mesmas caras feias, o mesmo povo chato de sempre, e os velhos professores. Não cumprimenta ninguém, vai direto a um banco, onde deita-se e usa a mochila de travesseiro, esperando o sinal tocar pra iniciar mais um ano de tortura.

As aulas vão se tornando exponencialmente piores. Na primeira, você encontra seu velho lugar, onde novamente usa sua mochila como travesseiro. Não faz a mínima idéia de quem é o professor que fala à frente. Não se interessa em olhar em volta: os colegas, infelizmente, são os mesmos, uma vez que transferência no IFET é a tão comum quanto dinossauros almoçando em restaurantes chineses.

No intervalo, depois de ter dormido durante as 4 primeiras aulas, pra não ser tão antissocial, aceita o convite dos velhos camaradas pra jogar truco. Ao término, volta à sala para mais duas aulas de sono. Volta pra casa, almoça e dorme até as 6 da tarde, pedindo pra tudo ser um sonho, e pedindo pra que não o tenha novamente, e pra que não tenha que repetir toda essa rotina trabalhosa e cansativa. Pedindo, pra que o melhor dia de aula do ano chegue o mais rápido possível: o último.

2 comentários sobre “O primeiro dia de aula

  1. Boa!

    Ainda bem que eu me livrei disso!
    No Ricaldi minhas chances de me fuder são maiores, mas foda-se, me livrei disso! :D

    Abraço

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  2. Percebam como higór é um aluno comportado e passa a aula inteira dentro de sala, mesmo que dormindo.
    Me deu sono na aula eu simplesmente saio de sala, geralmente com a desculpa de pegar um apagador, ou uma caneta de quadro. Fiz isso na primeira aula no primeiro dia de aula

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