A profundidade da porra

Logo que o trabalho de português acabou, o blog passou a ser uma espelunca mal frequentada infestada de ratos e baratas algo mais livre, onde nós podíamos mostrar nosso lado mais cotidiano. E lógico que meu lado mais cotidiano não é nada educado nem refinado (talvez seja fino e magro, mas não refinado), como diriam as más línguas, eu sou um semi-monstro em meu dia-a-dia. Então, já que eu seria mais cotidiano por aqui, eu tinha lógico que os textos passaram a ser um pouco mais “sujos”, por assim dizer.

Dispensável dizer que muita gente chiou com isso. Diziam que o blog era frequentado por pessoas de bem, de família, e que não era só a minha imagem que estava aqui afixada. Diziam que palavrão era um termo pobre, e que existia uma outra infinidade de termos mais “inteligentes” que eu poderia usar, e que aquilo me botava pra baixo no quesito inteligência.

Sabeis é claro que eu sou uma pessoa realmente muito preocupada com essas coisas. Então eu passei noites e noites em minha cama, rolando de um lado pro outro, babando e sonhando alto de preocupação. Mas eis que um belo dia me vem essa situação à cabeça e me fez pensar.

Será que palavrão é algo tão ruim assim? Algo tão sem conteúdo e tão fraco, algo que cause asco nas mocinhas e nos meninos-bieber?Algo que faça sua mae infartar?

A resposta é: Não.

Na verdade, o palavrão não é uma expressão pobre e chula, ma ssim uma das expressões de maior peso semântico da língua portuguesa, podendo até ser alvo de estudos de mestrado e doutorado, visto sua profundidade. Tomarei um exemplo bem conhecido de todos vós.

Porra. Mas afinal, o que é porra?

Porra é uma expressão utilizada à exaustão pelas pessoas comuns, principalmente aqui na terra de painho, minha querida Bahia. Uma simples expressão que muitos acham significar apenas a “sementinha” que nossos pais plantaram em nossas mães para nós nascermos, na verdade agrega toda uma gama de significados próprios.

Porra pode ser usado no lugar de substantivos, o que indicará o momentâneo lapso de memória, no qual esquecemos de alguma coisa, como no exemplo:

“Ô rapaiz, esqueci a porra…”

Ou ainda pode ser usado para reforçar a objetividade do objeto, ou seja, lembrar que o objeto é o centro da oração, como no exemplo:

“Ô rapaiz, esqueci a porra da carteira em cima da mesa!”

Mais uma das utilidades de porra é sua função de adjetivo comparativo, geralmente indicando o superlativo do adjetivo por exemplo:

“Higór é feio como a porra!”

Pode também ser usado como substantivo propriabstrato, para dar idéia de lugar:

“Na casa de fulano? Ôrra, isso é lá na casa da porra!”

Ou ainda, de distância:

“Ô rapaiz, é longe como a porra…”

Ou pode ser usado simplesmente como interjeição de espanto:

“Porra…”

Perceberam como um palavrão tem uma profundidade imensa?

Portanto mais cuidado ao dizer que uma pessoa que fala palavrões é alguém sem tato, sem domínio cognitivo da língua portuguesa, um neanderthal ou coisa do tipo. Ele pode ser simplesmente alguém especializado, só isso.

E que Nimb role bons dados para você!

Texto original: Renato Fechine (já ouviu “bebe negão”? É dele)

Modificações: Eu ;D

2 comentários sobre “A profundidade da porra

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