Trote como realmente é

Começo das aulas nas faculdades e instutos federais é sempre a mesma coisa. Como essa época do ano é fraca pra notícias, o grande foco da mídia é o trote nas universidades. O Fantástico mostra a mesma reportagem a anos, só com um pequeno update, o caso do menino chinês volta à tona, a sociedade se revolta, etc…

Mas a mídia se esquece de dizer que mortes e violência extrema são casos isolados, que se você for analisar existe muito mais trote que violência. Pegue o casos mostrados na wikipedia, que são apenas seis, enquanto que o número de faculdades no Brasil supera isso (não sei em quanto pois estou com serios problemas de preguicite aguda). Óbvio que deve ter muito mais, mas quando você for assistir ao fantástico, olhe quantos casos eles registram esse ano, quantos são apenas reprise e quantas faculdades se pode contar no Brasil. Aí você vê que não é tão grande assim o número de trotes abusivos….

Não que eu defenda quem faz trote violento, acho isso uma bela idiotice, mas defendo o trote como ele realmente é. E ele nada mais é de que uma forma dos calouros conhecerem os veteranos e vice-versa, além de conhecerem também o outros calouros. Qualquer aluno novo sabe que é uma merda se enturmar sem um evento desses.

Mas vocês não devem confiar inteiramente em mim, primeiro porque eu nao sou alguém que inspire confiança, e depois porque eu sou veterano e o cara que anima as coisas por aqui sou eu. Em suma, eu que organizo o trote aqui. Sim, eu perco noites, eu compro os materiais, eu faço estardalhaço no intervalo, eu sou ameaçado de suspensão, eu sou odiado pela direção, eu que me lasco no fim, eu que me divirto mais. E eu que faço a graça da coisa, porque sem mim ninguém faria nada.

Digo isso porque cinco dias antes das aulas começarem minha internet voltou e ninguém tinha organizado nada, então vou eu mandar scraps multiplos no orkut, divulgar comunidade, falar com o povo, comprar material, etc. Tudo pra que os calouros não tivessem vida boa, pelo menos na primeira semana. E óbvio que não tiveram.

Primeiro dia já pegamos um desinfeliz e colocamos pra tirar uma antiga dúvida nossa: quantos canudinhos media o colégio. Coisa que repetimos com outro calouro porque os dois lados poderiam ser diferentes, e nós não queríamos morrer com essa dúvida. Depois fomos inaugurar a quadra (que ainda não estava pronta) e, ainda suados, passamos no corredor abraçando as calouras desavisadas.

– “Mas eu nem te conheço” –  gritava uma delas – “Como se importasse algo…” – Dizia eu

Na hora do intervalo então, fizemos um quiz show com alguns poucos calouros (porque não tínhamos mais tempo). Era bem simples, eles tinham que responder uma pergunta selecionada por nós, se acertassem, levava tinta, se errassem, levavam tinta em dobro. Eram umas perguntas fáceis, só vestibular da segunda fase da UESC, PUC e UFES. O grande lance da história é que nem mesmo eu ( que era o apresentador) sabia as respostas, porque a gente só baixou a prova, e o gabarito ficou pra depois, coisa que ó um cara percebeu, confirmando a idéia geral de que calouro é burro.

Durante a aula inaugural, outra sacanagem foi feita. Meu caríssimo amigo presidente do grêmio de ajudou nessa. Ele usou de sua influência pra entrar no meio da palestra e ameaçar os calouro dizendo que “quem não viesse com a cor da camiseta solicitada (vermelho, verde e azul, uma pra cada turma), pagaria uma prenda”, que significa que o bicho ia pegar.

Então, no fim do dia, um dos grandes eventos da semana aconteceu: o banho de tinta. Esse é o meu favorito, porque é no primeiro dia, os calouros nao sabem direito o que vai acontecer, não tem a direção enchendo o saco do lado e todo mundo fica feliz.

A gente fechou a saída com as tintas na mao, enquanto os calouros iam saindo da aula inaugural. Pior que como nao teve trote ano passado, tem muita gente ali que eu não conheço, e povo do segundo no era confundido com calouro.

Aí começou a melação. Segundo a direção, iso era só pra quem quisesse participar, e a gente só fez realmente com quem quis, mas a gente não disse aos calouros qualquer coisa que desse essa idéia. Então a gente melou eles mesmo. Alguns mais burros insistiam em se limpar e tentar passar por onde a gente tava (sem sucesso, óbvio) e era melado de novo, até desistir dessa idéia imbecil. E teve um mais esperto ainda que tentou passar, pasmem, correndo! Isso, a mula tentou passar correndo por 7 mols de veteranos na entrada e ele queria passar correndo. Também teve o seu, tropeçou e caiu de boca no chão de brita do estacionamento (e quando digo de boca, foi de boca mesmo), levantando com a testa suja de vermelho e levando veteranos ao desespero, apenas para descobrir que era tinta. E assim foi até que todos estivessem melados.

No segundo dia, foi engraçado ver a quantidade de gente que veio com a camiseta na cor indicada, e mais ainda aqueles olhavam com medo pra gente por conta de não saber o que a gente poderia fazer. e óbvio que a gente aproveitava, tocando o terrr nas salas ainda mais.

Então, na hora do intervalo, deu-se início à melhor desa brincadeiras de intervalo da semana: a troca de itens. Pra explicar isso, um vídeo vale mais que mil palavras:

a divulgação do vídeo que a gente gravou no dia não foi liberada ainda (sim, a diretoria é fresca) , mas assim que a gente conseguir upar o vídeo, eu edito aqui

A brincadeira era dessa forma, e óbvio q os calouros recrutados não sabiam que era opcional. Primeiro a gente usou um papelzinho, depois uma balinha e depois meia balinha. Os calouros adoraam, óbvio, e os veteranos ficaram injurados comigo porque eu não fiz isso no tempo deles.

Só teve uma caloura que merece nota nisso aqui: ela era uma das recrutas e , enquanto estava entre dois meninos que (segundo as veteranas) eram bonitos, ela ficou de boa. Quando remodelaram eles de lugar e botaram ela entre dois calouros feios, ela se mandou. No outro dia quando fui puxa-la para outra brincadeira ela se recusou e alegou “não ter gostado na brincadeira no dia anterior”. Puxei na minha mente todos os sinônimos de meretriz que eu conhecia e só não os disse porque tinha que chamar o máximo de gente possível para a brincadeira.

A brincadeira em questão era uma das mais famosas de trotes conhecidas: o elefantinho.

O que houve foi uma corrida na aprte de trás do colégio (eu queria que fossem nos corredores, porque lá tem lugares para bater a cabeça), e como o povo é burro, toda hora soltavam a mão e tinham que recomeçar.

Na quinta feira foi o trote mais leve da semana e nem merece tanta descrição: a gente simplesmente pegou os calouros, maquiou e vestiu de mulher. Óbvio que pelo tempo hábil foram só 4 caras, que depois desceram na boquinha da garrafa (que por sinal era um copo de plástico).

Já o último dia foi o fechamento com chave de ouro, foi o dia do leilão.

Leilão de calouros é uma brincadeira no qual os veteranos compram os calouros (e pagam em quilos de alimentos, doados ao colégio) e estes ficam sob sua tutela por um mês, realizando pequenas tarefas (“compra ali minha coca-cola”, “guarda lugar na cantina”, etc). Isso é o que dizem, mas a verdade é que isso serve pros veteranos analisarem as carnes novas sem que isso possa lhes render a alcunha de pervertidos(as).

Durante a semana dissemos que aquele calouro que trouxer mais alimentos se safaria de participar do leilão, o que era mentira, porque quem não quisesse não precisava participar do leilão mesmo. E teve uma menina que levou tão à sério que trouxe nada menos que 30 quilos de alimentos! Pobre moça…

Dissemos também que a turma teria que fazer uma apresentação de dança com musicas selecionadas por nós, que rendeu uma apresentação muito boa (e com os menores shorts femininos que eu já vi) e duas muito ruins, além de uma piada excelente.

E então veio o leilão. Depois de muito stress, porque a direção fez de tudo pra boicotar, jogando a programação no saco. Aí foi só a gente ameaçar não fazer o leilão (o que implicitamente significava que os trotes continuariam, só parando com uma suspensão coletiva para 8 turmas veteranas) que rapidinho arrumaram um jeito de fazer o negócio no dia mesmo.

Então começou o leilão, e logo os veteranos que estavam de olho em alguma carne nova vieram me contar das estratégias e como eu deveria proceder, as maracutaias sobre pontos, uma estratégia pra sacanear um calouro que tem uma idéia fixa na cabeça de que é veterano (melando o povo com tinta e tudo) e várias dancinhas engraçadas.

O legal era ver a cara do pedagogo abismado com a “sensualidade” das danças apresentadas por alguns calouros (“Ei, bota funk pra eu dançar?”) e ver ele vindo reclamar do horário, já que eram duas da tarde e ainda tinham cerca de 200 cabeças ali dentro e nenhuma com  pretensão de ir embora.

E então, finalmente, a semana de trotes acabou. Noites perdidas, dinheiro gasto, ameaças de suspensão, ódio da diretoria, tudo isso no final das contas vale a pena pela diversão e contato com as novas pessoinhas.

E que Nimb role bons dados para você!

Digaê

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s