Pá, Pá, Pá

Quando eu era moleque, as conversas com a galere no verão geralmente rodavam em torno de “Qual pé de árvore* tava mais carregado”, “Quem corre mais”, “O cachorro da mulher que enrabou* o menino”. Era um bom tempo, mas me entristeceu ver hoje as crianças daqui do bairro falando sobre o calibre da arma, o ângulo do tiro e a fisionomia do cara que atirou no portão dos vizinhos a menos de 10 metros deles.

Tudo começou quando eu tinha acabado de chegar do kung fu (porque agora eu sou um atleta que cuida da saúde, com exceção da saúde do fígado) e sentava-me no balcão da cozinha para usar o notebook (Já que meu PC tá fudido e o balcão da cozinha é o melhor lugar pra pegar o sinal porco do 3g da vivo). De repente eu escuto 3 pipocos** vindos da rua. Na hora pensei ser alguém martelando, ou batendo em madeira, coisa que já tinha acontecido antes, mas aí um ruído de pneu cantando na terra batida me alarmou.

Corri para o portão para checar o que era, e me deparei com um monte de criança correndo, gritando, chorando, desesperadas. Uma das meninas tava mais branca que cocaína em festa de farinha de trigo, e a outra tremia mais que gelatina em terremoto. Perguntei o que era, mas eu já sabia da resposta. As meninas começaram a gritar em toques polifônicos: “FOI TIRO! CORRE PRA DENTRO! UM CARA ATIROU ALI BEM DO LADO DA GENTE!”. Na hora eu olhei pra ver se não tinha ninguém machucado (a casa tava um brinco, manchas no tapete era a última coisa que eu queria ver), por sorte, estavam todos bem.

A primeira coisa que eu quis fazer foi ligar pra polícia, já que minha mãe tentava consolar minha irmã, que estava em choque. Nunca tinha visto uma pessoa em choque, achei que fosse menos escandaloso do que a gente vê na tv, mas é igualzinho, minha irmã, totalmente pálida, tremia da cabeça aos pés e alternava entre gritos histéricos e choro, pobrezinha. Sorte dela que era minha mãe que consolava, fosse eu dava logo dois tapas por cima da cara e fala “SE ACALMA PORRA! CONTA ESSA HISTÓRIA DIREITO”. Até eu conseguir reunir os fatos pra contar uma história inteligível pra polícia, pelo menos 10 minutos tinham se passado.

Nem fez diferença, já que a porra da polícia não atendeu minhas 15 ligações (sem nenhuma licença poética). Me pergunto pra que o 190 é um número de emergência, pra que a gente consegue ligar pra ele de zonas rurais, se ali, da zona urbana (ou ao menos da lenda dela), a quatro quadras de distância dos puliça eu não consigo ligar pra eles.

Engraçado que quem conseguiu falar cos ômi foi o namorado da minha mãe, a a 10 km de distância da delegacia, que finalmente conseguiu que duas viaturas fossem lá pro bairro e fazer com que alguém conseguisse pregar o olho de noite.

Eu só fico me perguntando cadê a tranquilidade das cidades pequenas que vendem nos folhetos imobiliários?

E que Nimb role bons dados para todos nós!

*Ambas são expressões típicas da minha cidade que significam respectivamente “Qualquer planta que cresca e suporte o peso de uma criança de 0 a 12 anos” e “Correu atrás com o intuito de morder”
**Estrondo muito alto

Digaê

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