Como NÃO se matricular na faculdade

As pessoas acham que vida de pré-vestibulando é fácil, que são só 9 meses de sofrimento pra depois ter a vida ganha. Que passar no vestibular é a máxima da vida do ser humano, e que depois disso a vida é só flores,  que a única coisa que o futuro reserva são comemorações, trotes, festas de faculdades e, se você não fizer computação, sexo.

Talvez até seja isso, mas pras pessoas normais. Para gente como eu, enquanto há tempo, algo dará errado, por menor que esse tempo seja. E isso nunca se provou tão certo como nesses dias que antecederam a matrícula.

Tudo começou quando o resultado do sisu saiu. E até nisso o meu já começou errado, umas 6 horas antes do resultado geral ser divulgado tava lá no meu boletim que eu tinha sido aprovado. Lindo lindo, se 5 minutos depois o resultado não tivesse desaparecido, levando à depressão minha pobre pessoa.

Ok, horas depois saiu o resultado lá, aprovado e tal. Em último, tudo bem, mas vestibular é igual sexo, não importa a posição, o que importa é entrar. Aí vocês devem estar pensando que eu tava pulando de alegria, levantando os braços e agradecendo jeová, buda e allah, mas que nada. Devo lembrar-lhes que ainda estou tendo aulas naquela oitavo inferno que eu chamo carinhosamente de “colégio”, então ainda não tenho a desgraça do certificado de conclusão de curso. Basicamente eu sou um daqueles estudantes gênios que passam pra faculdade ainda no ensino médio (excluindo a parte do gênio).

Aí começou a cruzada épica das ligações pras faculdades. Estavam comigo nesse barco de caronte mais 5 cabeças, que naquela fatídica sexta feira receberam a noticia que iria os deixar o mais próximo possível de um ataque cardíaco. Logo que recebemos o resultado, corremos pra pegar todos os telefones das faculdades e no outro dia entregamos na direção de ensino. Segundo eles, eles não iriam ligar naquele dia porque “Sábado não teria ninguém nas faculdades”, além do mais, algum dedo poderia cair durante a discagem dos números, visto a estafa que isso causa. No máximo alguns emails foram enviados, e passaríamos o fim de semana esperando.

Passei o resto do sábado e o domingo inteiro depressivo, recusei de bater o baba, recusei uma mesa cheia de vodkas que eu nunca achei que fosse ver fora de clips de hiphop, recusei me empanturrar de bolo de aniversário, tudo em nome da depressão.

Chegando na segunda, a saga da documentação começou. Logo pela manhã, algumas mães foram fazer pressão na direção para que eles fizessem alguma coisa. Pobrezinhos, o sindicato faz greve, o sindicato faz merda e a direção se fode. Aí o diretor fez o que pode e passou a bola pra secretária, que começou a ligar pras faculdades. Algumas faculdades responderam rapidamente, sinalizando que apenas um certificado de concluinte seria necessário. Óbvio que a que eu passei não foi uma dessas.

Enquanto nós esperávamos a resposta, fomos à caça. Pra emitir a declaração era necessário que eu estivesse de fato aprovado, ou seja, alcançado os 24 pontos na terceira unidade. Óbvio que eu não estava, e nem teria como, porque o regime semestral permite que os professores lancem todas as notas da unidade de uma vez só, mas ainda assim eles tem que lançar 4 notas, visto que o sistema do colégio é um cu, e nosso “semestre” é considerado um “ano” pra ele, com 4 unidades.

Então, pusemos uma roupa marrom-esverdeada, um chapéu, um rifle nas costas e saímos à caça

(Coloque um rifle nas costas de algum desses aí)

Alguns professores foram solícitos, outros se intimidaram pela presença do nosso rifle, mas alguns resolveram dificultar mais ainda nossa vida. Disseram que não podiam, que o povo ia reclamar, etc etc etc. Tivemos que aceitar ter uma nota pior do que teríamos, além de aceitar fazer todos os trabalhos até o fim da unidade (e devo lembrar que eu estou estudando no verão), além de não contar pra ninguém sobre isso. Em suma, eu tava fudido, mas era melhor que nada.

Foram dois dias inteiros, das sete da manhã às cinco da tarde. Enquanto isso, os emails das faculdades eram esperados, o que só aumentava a angústia. Ao final da caçada, nada ainda, o que só aumentava a expectativa. E isso já era quarta feira de noite. Devo lembrar-lhe que a faculdade fica a mais de 1500 de casa, e que eu ia de busão, 30 horas, além de que a matrícula ia acontecer no dia seguinte e no outro. Ou seja, eu estava em desespero.

De noite, fui arrumar meus documentos. RG, CPF, titulo de eleitor, certidão de nascimento… Opa, essa certidão não tem declaração de cor! Como eu esqueci de explicar, eu passei via cotas, pra escola pública e pra negro/pardo, e como eu já expliquei aqui no blog, eu detesto esse negócio de cor, mas fazer o que. Pesquisei um pouco na internet e descobri que se eu fizesse um BO na policia civil, lá estaria esclarecida minha cor.

Fui la de manha bem cedo, já no dia derradeiro pra viajar, fui la na policia e ele me instruiu a “perder” minha carteirinha estudantil, que ele emitiria um documento alegando que eu tinha a cútis faioderma. Pelo menos isso deu certo. Fui pro colégio, e nada da buceta do email. A secretária ligou novamente pras faculdades, e eles disseram que mandariam o email.

Como não dava tempo de ficar esperando, lá fui eu pras minhas 30 horas de ônibus, quente demais pra ficar acordado e frio demais pra dormir, ouvindo sobre como a menina da poltrona da frente tinha emprenhado aos 15 anos, sobre como tinha um manauara delicioso que queria comer a mulher da poltrona 21 e ela fez doce, sobre como a filha da mulher da poltrona do lado amava a vó e etc.

Eu teria que pegar 2 ônibus, um Porto Seguro – São Paulo, outro São Paulo – São Carlos, ônibus esse que eu supus custar 20 reais a menos do que realmente custa, o que me deu 40 reais de prejuízo e me fez trocar a suíte do hotel para um quarto com banheiro coletivo.

Pelo menos, depois disso mais nada deu errado, e finalmente consegui me matricular na tão sonhada faculdade. E o filadaputa que disser que essa porra não foi merecida tem um lugar garantido em todos os 7 infernos, principalmente naquele onde ele será assolado por pirombas insaciáveis por ânus desavisados.

E que Nimb role bons dados para você!

Muito obrigado a UFSCar por quase me matar do coração e patrocinar esse post!

Um comentário sobre “Como NÃO se matricular na faculdade

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