O dia em que um livro salvou minha pele

Minha mãe nunca gostou muito de me dar livros.

Antes que vocês corram para dar pauladas nela ou se perguntem como eu gosto tanto de escrever sem o hábito da leitura, saiba que ela me dava livros sim, porém não gostava do ato. Isso se dava pelo fato d’eu ser um bookworm, d’eu devorar páginas e páginas e em questão de poucos dias terminar os livros que ela me dava (ou qualquer outro) tornando o presente tão sonhado em volume na estante, para ser usado apenas em outro momento de muita ociosidade. Quase um desperdício de dinheiro.

Já meu pai, prático e agoniado como era, achava inútil me dar livros de presente. Isso porque sempre fui apaixonado por romances (se você acha que romances  são apenas histórias de amor, por favor, aperte ctrl+w e nunca mais volte aqui) , logo, apaixonado por coisas que nunca iam me render nada na vida, um presente mais útil seriam livros de matemática, robótica, etc. Desnecessário apontar o erro do meu pai.

A questão é que, mesmo os romances não servindo como conhecimento técnico em sua maioria, houve um dia em que ele me serviu quase como um manual.

Os leitores mais antigos (e de melhor memória) porventura me viram citar uma trilogia de livros, sempre sob elogios, que me é muito estimada. Já li todos os livros dela pelo menos três vezes (e acabo de terminar o terceiro livro pela quinta ou sexta vez), e quase obriguei todos os meus amigos a lê-los (o primeiro passou por mais de 10 mãos diferentes e, atualmente, encontra-se com a capa extremamente gasta). Sim, são meus três livros favoritos disparados. Nunca havia imaginado que utilizaria eles tão bem algum dia.

Era fim de ano, época de festividade, alegria e odes ao amor e amizade. Como manda a tradição, um amigo secreto lá na sala foi organizado, para fingir que nos importamos com as outras pessoas e na esperança de darmos um presentinho furreca e ganharmos um presentão foderoso.

Porém, na malícia que me é de costume, resolvi exportar uma tradição. Além do presente de amigo secreto, seria também necessário um presente de amigo sacanagem, alguma lembrancinha que remetesse a algo que pudesse envergonhar a pessoa e render algumas risadas.

Dei o azar de pegar a pessoa mais zoada pela masculinidade duvidosa na sala. Digo azar porque quando se pega um cara zoado, sua criatividade não pode ser posta à prova, logo perde o feeling aprontar com o cara. Contudo, de forma análoga a pegar mulher feia pra não ficar zerado, tive que aceitar o fardo imposto.

Pela pressa, não tive tempo de passar em um sex shop e comprar algo mais elaborado. Me restaram os filmes pornográficos. Gays, obviamente. Porém a grande questão era “Como comprar um pornô gay na única banca em quilômetros sem ter que se passar por engolidor de espadas?”.

Recorri aos ensinamentos do livro. Em uma certa parte, um dos personagens toma aulas de como aplicar golpes, desde golpes pequenos até golpes megalomaníacos que levavam meses para se concluir. Mas era um golpezinho pequenino que me seria crucial na luta pela boa imagem testosterônica. O golpe é bem simples de se executar, porém sofisticado na maneira com que é executado, consistindo em fazer pequenas sugestões ao interlocutor de modo a ele chegar numa conclusão pensada por você, mas parecendo que a idéia foi dele. Durante a aplicação é mais fácil de entendê-lo.

Ao chegar na banca, perguntei se a atendente teria papéis de presente. Ela me indicou uma papelaria do outro lado da rua onde eu poderia encontrá-lo. Aí começou a putaria, falei como quem não quer nada: “É que eu precisava comprar um presente para sacanear um amigo…”. Pronto, a isca já estava jogada, bastava esperar que a moça engolisse. Caso ela dissesse algo diferente do planejado, me restaria vagar sem rumo, pensando em outra coisa para tapar o buraco do ego ferido.

Mas Nimb estava do meu lado e ela mordeu o anzol com gosto,  “Ah, cê quer pornô?”. Estava feita, minha imagem estava a salvo e aí pude complementar: “Uhum, e se possível, gostaria do mais barato e mais escrachado que você tivesse”. Depois disso já éramos amigos de infância, conversávamos sobre os gêneros de filmes pornô existentes (ela, inclusive, me indicou um de travestis de custava 5 reais e não tinha cara de ser muito ortodoxo), sobre o fato de muitos homossexuais irem lá comprar os filmes pornô com ela, etc…

E, assim que saí da banca, destranquei e consegui ficar aliviado pela primeira vez naquele dia.

Então, como diria o he-man, no episódio de hoje aprendemos que mesmo que seu pai reclame do seu vício inútil, saiba que um dia ele pode lhe servir muito bem.

E que Nimb role bons dados para você!

3 comentários sobre “O dia em que um livro salvou minha pele

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