O carnaval não pode acabar

O carnaval é um mal necessário no Brasil, e no momento que ele acabar, nossa sociedade vai viver uma volta ao estado natureza que até Rousseau se espantaria.

Porém, ainda existem pessoas que, fechadas em seu mundinho de trabalho, imaginam que todas as pessoas são iguais (pelo fato de terem dois braços e duas pernas), e, portanto, são plenamente capazes de se tornarem o novo presidente do banco do Brasil apenas com trabalho duro. Lógicamente, se há capacidade, a única coisa que falta é vontade de trabalhar, e lá vem o carnaval pra atrapalhar esse povo. Então, a solução mais lógica é, basicamente, acabar com o carnaval.

Danilo Gentili, carnaval e o povo brasileiro

Utilizar exemplos de outros países que deram certo é tão ilógico quanto dizer que você deveria dar o cu porque tem gente que gosta e se dá muito bem com isso, o buraco é mais embaixo. Para conseguirmos chegar a uma conclusão plausível sobre a necessidade ou não do carnaval, temos que analisar as pessoas que dizem que o carnaval deve acabar.

A desigualdade social no país é um fato, não há o que discutir, todos sabemos que ” oportunidade” é um conceito extremamente mal utilizado. Se você nasce rico, ao menos rico você permanecerá, mesmo sem esforço. Se você nasce pobre, qualquer pequeno degrau da vida se torna uma escalada ao k2, numa tempestade de neve, sem equipamento (pense nessa analogia da próxima vez que for criticar as cotas, que aliás é o tema de um texto futuro). Sendo assim, concluímos que esforço não é condição suficiente para fazer porra nenhuma.

Como se não bastasse, vemos que, no geral, as pessoas que criticam o carnaval, estão muito bem de vida. Possuem uma boa vida, família acolhedora, uma posição social confortável, uma carreira que lhes permite crescer e o principal, tempo pra pensar. Ora, isso é óbvio, Ford já tinha percebido isso há quase um século, sabia que o bem-estar do trabalhador era um dos pontos fundamentais para a boa execução do serviço. Dessa posição, é muito fácil enxergar os problemas sociais isolados, o problema é se colocar no lugar dos outros. Vivemos num país de coisas caras e pessoas baratas, temos o iPhone mais caro do mundo e a diarista mais barata. Nos recusamos a fazer os trabalhos mais insalubres, mais chatos, porque sabemos que existe uma pessoa em algum lugar que aceitará esse trabalho por um preço irrisório. Se ele está satisfeito ou não, isso é assunto para outra conversa.

Chegamos ao cume da montanha: vivemos numa sociedade de pessoas infelizes, exploradas a todo momento e ainda por cima culpadas por simplesmente quererem um período do ano para jogar para o alto todo o stress e esquecer que na quarta-feira de cinzas a rotina volta ao normal, e com ela toda a infelicidade e tédio que algumas pessoas jamais conhecerão. Agora me digam vocês: acabando com o carnaval, acabamos com os problemas do país?

Pensem direito.

E que Nimb role bons dados para vocês!

[Apêndice: Após ler esse texto, você provavelmente sentiu uma ponta de culpa. Isso é normal, eu mesmo senti várias, mas a questão central não é apontar culpados, ninguém é culpado por ser rico. Perceba como, durante o texto, eu não citei o fator cultural do carnaval, não disse como ele movimenta a economia, aquece o mercado de turismo, etc… O objetivo desse texto é fazer com que você pense a sua situação atual de conforto e se colocar no lugar do outro, que não vive a sua realidade, além de tentar ampliar a sua visão, deixando de lado essa análise maniqueísta que nós costumamos ter de nossos problemas.]

Um comentário sobre “O carnaval não pode acabar

Digaê

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s