No dos outros é algodão

Nota do autor: Antes que o qualquer má interpretação seja feita antes da leitura completa desse texto, leia essa porra até o fim. Não há qualquer intenção em perpetuar nenhum tipo de preconceito (o autor desse texto é feminista), mas chamar atenção para alguns fatos hipócritamente esquecidos.

Não sei se todos por aqui estão acompanhando o caso miss bixete, ocorrido durante a calourada da USP-São Carlos. Para aqueles que não estão acompanhando, vai um pequeno resumo

Miss bixete é uma tradicional atividade de calourada da USP-São Carlos organizada pelo GAP (grupo de apoio à putaria), um concurso de beleza no qual as novas alunas desfilam e se exibem para uma grande audiência que, por ser parte da USP-São Carlos, é composta em sua maioria por homens. Durante a sua execução, a frente feminista de São Carlos, em conjunto com o coletivo de mulheres do CAASO, organizou uma manifestação contrária à execução do evento. Durante a manifestação, alguns alunos da USP hostilizaram as manifestantes, jogando bombas, agredindo, tentando agarra-las e mostrando as genitais, num ato popularmente conhecido como pirocóptero.

Óbvio que isso gerou furor na comunidade feminista do brasil inteiro.

Perceba que o bombadinho de óculos escuro e caneca à tiracolo é o idiota, mas a moça que usa saia grande não

Percebam que o bombadinho de óculos escuro e caneca à tiracolo é o idiota, mas a moça que usa saia grande não

Antes de mais nada, quero dizer que, sim, o miss bixete é um evento machista, diversas formas de opressão são vistas durante a realização e nas opiniões emitidas após o mesmo. Mesmo que eu defenda a existência dele (afinal pra mim a pessoa que participa de um evento desses sabe a que tipo de “elogio” está sujeita e mostrar os peitos no tumblr é igual a mostrar os peitos no salão de eventos da USP) o foco do texto não é esse.

A questão que eu venho salientar aqui é: aonde está nosso preconceito? Até onde vai nossa capacidade de empatia? Porque o errado é o “machista” e não o “machismo”?

O miss bixete foi um bom evento porque mostrou ao público em geral como a agressão contra a mulher não é necessariamente verbal, mas também moral e psicológica. Gritos de “PEITÃO, PEITÃO” podem ser tão nocivos quanto socos e pontapés. Isso é ótimo, mas ao mesmo tempo é uma merda, porque se vocês perceberem, a maioria dos comentários em protesto vem de mulheres (e percebam bem quando digo “maioria”, existem homens que o criticam também).

Não digo isso para ser machista, ou para dizer que feminismo é bobagem, mas para chamar a atenção para um fato muito interessante que as pessoas simplesmente não estão nem aí: pau no cu dos outros é algodão.

Quando escolhi fazer faculdade em São Paulo, eu sabia exatamente a cumbuca na qual eu estava metendo a mão. Como todos vocês sabem, eu sou baiano, logo, vocês podem saber, por associação, que ir pro interior de São Paulo não é exatamente uma idéia genial, visto que paulistas tem um longo histórico de xenofobia com nordestinos.

Até aí tudo bem, euzinho aqui, nascido e criado no dendê, sei bem como me virar e me enturmar em qualquer ambiente possível. Basicamente eu vesti a armadura, botei o uniforme do baêa e fui pra campo, sou um dos caras que mais faz piada com baianos, enalteço as características da minha terra, falo sobre isso 24/7, minha intenção é dizer: “Se isso é veneno pra você, saiba que eu como com farinha no café da manhã.“. É evidente que isso não me livra de sofrer nenhum tipo de preconceito (“Eu não fico com nordestinos.“), nem tampouco ajuda algumas pessoas a superarem os preconceitos delas, tem gente que simplesmente é idiota (“Você é legal, mas eu não gosto de baianos, tenho meus motivos.“), mas a gente vai levando a vida.

E com que surpresa que algumas dessas mesmas pessoas que me disseram isso estão agora chateadinhas com esse lance do miss bixete! Xenofobia pode, machismo não, afinal, só o machismo mata, só o machismo prejudica um dos lados da moeda enquanto o outro se fode lá, ninguém nunca morreu por xenofobia no mundo, nem tampouco continua morrendo.

Antes que você aí já levante seu escudo do “Eu não sou assim, tenho bons amigos nordestinos!“, saiba que não é só sobre esse tipo de preconceito que eu estou falando (muito embora ter amigos nordestinos não signifique nada), falo de racismo, preconceito contra indígenas (afinal, colocar “Guarani-Kaiowá” no facebook não lhe torna um dos irmãos Villas-Bôas), preconceito contra deficiente, dentre tantas outras formas de preconceito.

Odeie o proconceito, mas não o preconceituoso, afinal, a vítima hoje pode ser o carrasco de amanhã.

E que Nimb role bons dados para vocês!

Agradecimentos especiais a todos o baianos residentes em são carlos e, em especial, ao baiano (é esse o apelido dele, vou fazer o quê?), por sempre estar ali para a próxima presepada.

2 comentários sobre “No dos outros é algodão

  1. Saudades dos tempos de discutir assuntos desse jeito sem ser a unica ofendida na roda. O problema não é só em São Paulo não, em Minas Gerais a gnt vê o preconceito no colega ao lado que não vê nada de mais fazer piadas sobre aquele pretinho que não passou em cálculo ou sobre aquele paraíba que tem a cabeça chata…

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  2. Bem complicado isso, acho que preconceito é quando uma piada ou brincadeira passa de um certo limite, e começa a denegrir a imagem de alguém, humilhando e rebaixando a pessoa

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