Uma cerveja e um blues, por favor!

O bom das surpresas é que até o lugar de onde elas vem é uma surpresa. É meio incongruente  alguém falar que a vida é um porre sendo que sabemos que a qualquer momento uma surpresa pode acometer nossas vidas.

louis

Minha mãe tem um bar, lugar esse no qual sou escravizado três dias por semana. No geral, não é um trampo que exija muito esforço mental ou físico, basicamente eu tenho que servir as mesas e aturar um eventual bêbado. Chega a ser parado, visto que o foco do bar não é o cara que enche o cu de cachaça todos os dias, mas sim o morador que gosta de comer um petisco, tomar uma cerveja e escutar algo diferente de axé/pagodão/arrocha. Dá pra passar o tempo.

Mas algo quebrou essa monotonia.

Num dia com pouco movimento decidi mudar um pouco o ambiente. Pelo público do bar, em geral pessoas de meia idade, brancas e de classe média, MPB é o estilo que predomina nas caixas de som, fato esse que eu alteraria para sair da mesmice. Decidi que, por essa noite, nada além de blues passaria pela caixa de som. Baixei dois CDs do B.B. King, coloquei-os no pendrive, pendrive este que eu inseri no DVD e voltei à minha jogatina.

Eis que, para minha surpresa, um dos clientes me chama. De início estranhei, já que minha mãe servia a mesa dele, mas mesmo assim fui lá ver qual era a dele. Era um senhor relativamente baixo, semi-corpudo, careca, aparentando ter sido atraente em sua jovialidade, mas agora só ostentava um semblante de caçador de novinhas, semblante esse que formava uma harmonia perfeita com seu sotaque francês e com a novinha que ele trazia de companhia na mesa. Porém, de algum modo, ele parecia ser simpático.

Ao chegar na mesa dele, ele me perguntou minha idade e me perguntou algo que me deixou um tanto quanto confuso:

Você está feliz da vida?

Porra cara, eu não sei nem escolher roupa, que dirá saber se eu to feliz ou não!

Mesmo sob essa dúvida do quão diferente era o conceito de felicidade para um menino nascido e criado no litoral baiano e um imigrante francês, respondi o que eu achava cabível:

Olha, no panorama geral eu to feliz sim, mas no presente momento eu estou agoniado pra voltarem as aulas da faculdade

Então, uma rápida e desinteressante conversa deu-se início. A moça que acompanhava o homem disse que eu tinha cara de estudante de engenharia civil, eu disse-a que tinha acertado 50% da sentença, que eu fazia engenharia de computação, fato esse que desencadeou um monólogo sobre ela querer fazer engenharia civil e gestão ambiental, mesmo estando numa segunda feira a noite enchendo a cara de cerveja, ao invés de estar estudando.

A noite ia passando e eu tomei a frente do serviço de mesa do simpático francês. Ele demonstrou ser menos idiota do que 90% dos clientes que frequentam o bar, me perguntava fatos aleatórios da minha vida e eu respondia com prazer. Apesar de ser uma segunda feira, foi uma noite menos insuportável do que as segundas feiras costumam ser neste inferno chamado lar.

Na hora de fechar a conta, ele pagou com uma nota de cem seu débito de quarenta e poucos reais. Seu troco foi dado em uma nota de cinquenta, algumas de dois e umas moedas, notas de dois e moedas essas que foram prontamente oferecidas a mim de gorjeta, fato esse que me causou estranhamento, afinal, a última gorjeta que eu havia recebido fora há mais de 10 anos, quando eu ainda tinha cara de criança inocente e quiçá bonitinha.

Após ofertar-me a gorjeta, ele disse o que, talvez, ele diria de mais insólito na noite:

Cuide de aprender o inglês (ou o francês, o alemão) e a matemática, o resto vem com o tempo.

Passei dias refletindo sobre isso e pensando o porquê disso tudo acontecer para chegar a conclusão de que algumas coisas simplesmente não tem porquê acontecer, elas simplesmente acontecem, cabe a nós dar o tratamento certo a essa informação.

Esse dia ficará pra sempre guardado como “O dia em que eu ganhei gorjeta por causa de um blues”, um dos dias que me fazem reafirmar minha crença no caos, na inevitabilidade e na aleatoriedade das coisas.

E que Nimb role bons dados para vocês!

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