Filmes de quadrinhos não são mais filmes de quadrinhos

Atenção: essa merda pode ter spoiler, não vou me segurar.

Assisti Donnie Darko noite passada. O filme  narra a história de um jovem problemático que passa a cometer crimes incitados por seu amigo imaginário, um coelho gigante, em retribuição a ele ter lhe salvo de um bizarro acidente.

O filme é, atualmente, o preferido da galera das internetz, figurando em vários tumblr, vários avatares e várias capas de facebook. Sabe-se lá o porque disso só agora, já que o filme é de 2001.

Não me entendam mal, é um excelente filme, o roteiro é uma viagem só e ele consegue ser um tanto quanto perturbador. Mas ele compõe algo que eu gosto de chamar nas minhas conversas mentais de “espectro da poseragem”. É basicamente o filme em que todo mundo se identifica com o personagem porque ele é, na verdade, algo que todo mundo quer ser: diferente, porém, com aquele toque de humanidade.

O protagonista é um jovem que, apesar de seus problemas mentais (sonambulismo e ocasional esquizofrenia), mantém relações com um círculo de amigos, é eleito como o menino mais bonito da sala e ainda guarda um segredo que tem potencial para mudar todo o mundo. Basicamente todo mundo se identifica com ele porque ele é tudo o que queremos ser. Mas não somos.

E agora este sou eu parafraseando outro filme que compõe o espectro da poseragem: clube da luta.

No filme, o narrador (que eu só percebi que não tinha nome na terceira vez que vi o filme) é um yuppie americano que não vê sentido na vida até conhecer Tyler Durden, que lhe dá uma nova perspectiva de vida trocando sopapos com caras aleatórios em um clube secreto.

Esse é o predecessor de Donnie Darko, pelo mesmo motivo, porém mais escancarado: quem não quer ser o Brad Pitt? Quem não quer comer a Angelina Jolie (mesmo que na época do filme ele não comesse)? A sacada do filme (e seu carisma) vem do fato de Tyler estar dentro do narrador!  Ora, temos um narrador apático, sem características marcantes, mas que esconde no interior da sua mente o cara mais foda do mundo, que sabe de tudo, que transa, que desce a porrada em qualquer um que pisar no seu calo.

Na transição entre esses dois, podemos citar também o segundo filme da última trilogia do eterno morcegão:

O filme dispensa apresentação, se você está aqui, você já assistiu, se não assistiu, assita.

Como vocês perceberam, citei esse por último e não no meio, como seria de se esperar pela ordem do modismo. Abandonei a cronologia por um motivo: ele é o exemplo máximo, o ápice de como o perfil do consumidor de filmes mudou, de como o adolescente mudou.

No filme, dessa vez não temos mais algo interior, saímos da dualidade interna do protagonista para uma dualidade externa: Batman e Coringa são duas faces da mesma moeda em duas moedas diferentes. E todo mundo quer dinheiro né?

Ambos são gênios, psicóticos (ou você acha que sair dando porrada na rua em caras aleatórios é ser bom da cabeça?), obcecados com o trabalho, vão até as últimas consequências no que fazem.  Contudo, o enquanto o batman é um playboy bilionário e come a rachel, o coringa é um cara que não liga para as consequências e que seu único propósito é a satisfação pessoal. É, basicamente, tudo o que a gente quer ser em dois caras.

Certa vez, num fórum de quadrinhos um usuário postou “Se lembra de quando filmes de quadrinhos eram só filmes de quadrinhos?”. Ao excluir o heroísmo do foco do filme e passar para o conflito interno de Bruce, rompeu-se com o paradigma anterior dos filmes de quadrinhos, não mais eram necessários vários vilões para preencher um filme, basta apenas um. O herói agora não é aquele que as pessoas queriam ser mas sabiam ser impossível (“Nossa, que foda cara, queria ser fodão que nem esse Tony Stark.”), o heroi agora é alguém em quem as pessoas se enxergam, elas realmente acham que, por trás da camada comum que exibimos, existe alguém fodão, um gênio latente que ninguém conhece e que você não tem a oportunidade de mostrar.

É legal se sentir especial e tudo mais. Só que, quando você percebe que todo mundo é e se sente especial, ninguém mais é.

E que nimb role bons dados para vocês!

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