O que eu aprendi nessa semana

Se você estiver lendo isso num futuro distante, saiba que “essa semana” é a semana da “revolta da salada” (ou seja lá como isso se chama). Essa semaninha em que todo mundo foi pras ruas, gritaram muito, caminharam pra caramba e pior, apanharam que nem mala velha.

Confesso que no começo eu achei tudo muito lindo, tudo muito bonito, o povo finalmente lutando por seus direitos, indo pras ruas, sem uma representação específica, só sendo o povo mesmo, o Brasil “acordando”.

Opa, peraí, “acordando”? Quer dizer que todos os movimentos que vinham ocorrendo no Brasil nos últimos anos eram um povo dormindo? A marcha das vadias era de sonâmbulos então? (Ok, a marcha da maconha pode até parecer, mas eram sonâmbulos que riam, ao menos). Isso me ensinou a primeira coisa:

Todo mundo quer ser especial

Eu já falei disso aqui, mas não custa repetir: todo mundo quer ser especial. Não basta ajudar as pessoas da sua cidade na luta pra diminuir a passagem, não, você tem que ser especial, tem que ser do grupo de pessoas que “acordou o gigante”, a parte da geração perdida que se encontrou, você, afinal, é o herói da nação.

Como disse a música, o tempo passou e eu sofri calado. Depois de um certo tempo de protesto, eu fiquei com o desconfiômetro ligado, afinal, é meio óbvio que nada vem de graça nessa vida e, no que diz respeito a uma manifestação desse porte, o porte do que tem a se ganhar/perder também é grande.

Eis que surgem as bandeiras de partido. De início eu pensei “Mas que merda esses caras tão fazendo aí? Só oportunista filha da puta, tanto na esquerda quanto na direita, isso é pura autopromoção!”. Quero dizer que achei lindo quando derrubaram a primeira e pensei  que finalmente era um movimento sem interesse por trás, o puro interesse da população. Porém, como vocês deveriam ter notado, meus dois pensamentos são a pura definição de antítese, já que “nada vir de graça nessa vida” e “puro interesse do povo” não combinam.

Depois de ver uma entrevista do pessoal do MPL no programa Roda Viva, da TV cultura, no qual eles assumiram a posição de esquerda, meu desconfiômetro foi lá em cima. Ora, eles tomam partido pela esquerda, mas na manifestação a galera quer a esquerda fora, tá meio confuso isso aí, não? Aí me lembraram que as manifestações por mudanças sociais no Brasil são organizadas pela esquerda e que a estrutura partidária é uma das bases da democracia, já que um partido deveria defender uma posição em que acredita e representar a população que concorda com essa ideia, democracia essa que permite que 100 mil pessoas compareçam às ruas do Rio de Janeiro. Isso me levou à segunda coisa aprendida:

O pessoal não sabe português

Tava lá o pessoal, descendo o cacete em nego do PSTU, dizendo que a manifestação é apartidária. Apartidarismo e anti-partidarismo são coisas dissociadas, muito embora tenham suas intercessões. Um a manifestação apartidária preza por manter distância entre o que a organização defende e o interesse de algum partido político. De fato, a manifestação ser apartidária não pode ter como objetivo a visibilidade do partido X ou Y, porém isso não significa que ele não deva ser visto lá, afinal isso mostra que ele está cumprindo com o se presta a fazer, ser apartidária significa fazer o seu e ligar o foda-se pro resto. A partir do momento em que a manifestação começou a derrubar as bandeiras, ela tomou um caráter anti-partidário. Vamos dar uma lidinha no dicionário né galera?

A manifestação continuou avançando e eu continuava encucado que isso tudo que tava acontecendo ia ser uma grande merda. Aí eu comecei a ver os manifestações menos como massa e mais como pessoas. E como vocês sabem, as pessoas são burras. Para mim, o mais icônico foi discutir com uma mina que achava que todos deveriam usar verde e amarelo na manifestação porque “Se fosse cada um com a sua roupa, não pareceria uma união, ninguém veria as roupas, que é o objetivo da manifestação.”. Sim, ela disse isso.

Aí as pessoas, como sempre, voltaram no anonymous, o que é a maior burrice do mundo. Se falar em anonymous na rede social onde o titio Obama pode claramente ter acesso aos nossos dados é, senão imbecil, o maior attwhorismo da história (pensando bem, os dois são sinônimos, então deixa pra lá). Apenas para uma rápida explicação, é um meme surgido em ambientes de real anonimato, onde você não tem nome, apelido, avatares, apenas o que escreve e posta. Não existe fora de lá e não faz sentido em nenhum outro lugar.

Isso pra não citar os mais clássicos. Chegamos agora à terceira lição:

É tudo um grande oba-oba

Ninguém para pra pensar no que está acontecendo, as notícias que a galera lê são só as dos portais manjados (e totalmente tendenciosas), todo mundo só quer protestar pra postar no instagram e dizer que ajudou a mudar o brasil. Ninguém lê nada, ninguém se preocupa na possibilidade de estar errado, só quer ir pra rua levantar cartaz e voltar pra casa pra postar no facebook.

Isso quando não levantam os cartazes errados. Foi curioso ver como uma manifestação sobre aumento de passagem de repente virou uma manifestação pelo impeachment da Dilma (como se fosse resolver), pela PEC37, a favor (e contra) do aborto, contra a corrupção, etc… Legal todos esses temas, todos merecem discussão, protestos, manifestações e o caralho, mas se aproveitar de um movimento que ganhou força para promover outra causa é hipocrisia (lembrando que as mesmas pessoas que protestam contra a corrupção são as que derrubam as bandeiras dos partidos).

Eu ainda poderia me estender falando de outras coisas, mas apenas recomendarei a leitura desse texto. E recomendo também que parem um pouco de escrever em caps lock no facebook e pensem em tudo o que está acontecendo e o seu papel pessoal nisso tudo. Você pode se surpreender.

E que nimb role bons dados para vocês!

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