Um mês de farinha gelada, “I’m sorry” e Maple Syrup

Como já deve ser do conhecimento de vocês três que leem o blog, eu inventei de ver como é que o sol nasce no hemisfério norte. É a mesma coisa, só que ele se esconde mais cedo e não serve pra muita coisa além de lâmpada.

Pois bem. No dia 29 de Dezembro de 2013, desembarcava nas praias canadenses, em Toronto, Ontario, o presente filhote de coqueiro que vos fala. Depois de o pessoal da imigração me olhar com cara feia e conferir meus documentos – imagino que seja o trabalho deles intimidar um pouco pro caso de o cara vir pra cá pensando em fazer cagada -, encontrei com o broder meu que já tá aqui e comecei então essa jornada que já tem pouco mais de um mês.

A primeira impressão foi ao sair do aeroporto, perceber que eu conseguia ver o ar saindo da minha boca, por conta da baixa temperatura ambiente. Esse foi provavelmente aquele momento que você grava pra sempre, aquela imagem que nunca vai te sair da cabeça. Senti o frio nos dedos, fiquei olhando pra eles que nem bestalhado, como o Neo na cena em que começa a reconhecer o novo corpo.

Foi tipo assim, mas aposto que não tava tão frio na Matrix.

Daí, fui pra casa do broder, onde ficaria pra fazer os ajustes iniciais até ter um teto pra morar, ter como me comunicar com a galera e mandar sinal de vida. Nesse caminho, tive o primeiro contato com o frio de verdade: batia um vento mortífero na cara, que deixa os músculos dormentes de um jeito que não dá nem pra falar direito. Os olhos lacrimejam – mas incrivelmente não congelam, por conta do sal presente, que reduz o ponto de solidificação ou coisa do tipo. O nariz fica escorrendo tal como as criancinhas catarrentas, por causa do acúmulo de sangue na região, que estimula a produção de muco. As mãos e pés ficam geladas porque o corpo desvia o sangue pros órgãos vitais. Sim, eu aprendi essas coisas com o Drauzio Varella.

Mas é claro que o pensamento na hora é “MANO, EU VO MORRE CARA, Q ISSO, Q ABSURDO, QRO MINHA MÃE!!11!”.

Mesmo assim, tirei a primeira foto no Canadá, da torre que passei dias e dias vendo só pelo Google Maps. Vou deixar ela aqui tanto pra você, quanto pra eu poder ver depois:

CN Tower. Essa foto quase me custou 3 dedos da mão direita.

Além da mudança de clima, houveram outras mudanças. Coisas pequenas, mas que ninguém perde tempo falando em lugar nenhum, mas que são detalhes legais de se observar. Por exemplo, o fato de não ter filtros por aqui, de se beber água direto da torneira, porque diz a lenda que a água é potável (a não ser que isso seja uma teoria conspiratória de controle populacional com o intuito de favorecer os nativos e causar morte nos imigrantes a longo prazo). Até agora não tive problema com vermes, e meu intestino funciona normalmente, sem precisar de Activia.

Um detalhe interessante que separei pra falar aqui é que o pessoal no trânsito é extremamente educado, considerando-se uma cidade de 5 milhões de pessoas – aliás, dirigir aqui deve ser uma merda. Se tem um carro em uma rua A, perpendicular a uma rua B, e o sinal abre pra a rua A, abre-se também simultaneamente o sinal para pedestres nessa mesma via. Como a preferência é sempre do pedestre, não é difícil ver em dias mais agitados o sinal abrir e um maluco ficar no carro no mesmo lugar sem poder avançar por estar esperando os pedestre,s e daí ter que ver ele se fechar e esperar ele abrir de novo. Imagino os motoristas uberlandenses por aqui, haha.

Há outros detalhes aleatórios, como por exemplo as casas daqui em geral terem banheiras, termos que separar o lixo entre reciclável, normal e orgânico, o pão que compramos já vir cortado, e termos que pagar pra lavar roupa. Ninguém anda de moto e as catracas nos metrôs não são travadas e não há roletas nos ônibus e street cars. Dá pra passar sem pagar, mas todo mundo paga. Há mais chineses e indianos aqui do que na própria China/Índia [2010, DataEU]. Comida é em geral cara, eletrônicos são baratos. Andar na neve é como andar na areia da praia dentro de um congelador Brastemp; se a calçada brilha, melhor andar mais devagar.

Quanto à educação, não vi nada de novo. Há muitos que defendem que o pessoal da América do Norte e alguns países da Europa é frio e não muito sociável. De fato, aquele calor e receptividade brasileiros não são muito comuns. O pessoal é mais quieto, mais na sua, mas isso é meio que esperado de qualquer cidade grande, até mesmo nas do Brasil. Sempre que pedi alguma informação a alguém aqui, nenhuma das pessoas foi mal educada, mas também ninguém quis saber como estavam minhas tias, ou os negócios da família. Isso é uma coisa difícil de se mensurar, que varia de pessoa pra pessoa mesmo.

Mas uma coisa sim é certa: os caras realmente pedem desculpas PRA TUDO. Já aconteceu várias vezes de eu estar andando na rua de boa e ter uma pessoa na frente, que ao perceber que eu estava vindo, pediu desculpas e saiu do caminho, ou de estarmos num grupo parados em pé, passar um maluco a 3 metros de distância, derrubar A PRÓPRIA BEBIDA após um tropeço, estender a mão em nossa direção e dizer “I’m sorry!”. Não que seja uma coisa ruim, mas é um estereótipo que até agora se provou verdadeiro e que é particularmente engraçado.

2014-01-20 19.52.08

Não sei se dá pra ver direito, mas tá escrito “I’m sorry” pichado no muro. Esse país não tem limites mesmo.

Mudando de assunto, a universidade em que estudo é realmente muito boa e sim, é um ritmo mais puxado, mesmo que tenhamos bem menos aulas que no Brasil. Tenho que estudar 500 vezes mais em casa – o que é uma dificuldade, já que to acostumado com um ritmo indisciplinado de estudos, leia-se, estudar muito pouco ou quase nada. As aulas são menores, no geral mais dinâmicas e há mais esforço semanal do que o que to acostumado. Mesmo assim, nada de outro mundo, nada que qualquer estudante brasileiro com o mínimo de interesse não seja capaz de acompanhar. Nesse quesito, as universidades do Brasil não deixam tanto a desejar. Apenas aplicam uma metodologia diferente; se é menos ou mais eficiente, é assunto pra outro post.

No quesito estrutura, porém, sim, os caras nos ownam. E isso não é discurso barato de brasileiro deslumbrado. As bibliotecas são gigantes e super chiques, tão chiques que parecem shoppings. Os campi ocupam facilmente um bairro inteiro cada, com salas de aula bem equipadas e modernas, que podem chegar a caber mais de 1000 cabeças de gado por lecture (aula expositiva), facilmente.

(E ainda há professores que não conseguem lidar com Data Show, apesar disso. Aparentemente isso é algo que precisa de mudança a nível global.)

Mas calma lá, as minhas aulas têm no máximo cem pessoas. Ninguém curte muito essa coisa de programar.

Por enquanto é só, crianças. Me deu sono e o final do texto ficou uma bosta. Tenho outras histórias, mas certamente você já deve ter cansado de ler – se eu já cansei de escrever, COM CERTEZA você já cansou de ler. Assim que tiver com mais tempo sobrando, contarei mais dessa jornada no ártico.

I’m sorry! See ya!

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