É só isso

Este texto não se propõe a ser sério, nem científico, nem mostrar a situação geral de coisa alguma, esse texto é um singelo desabafo de um estudante decepcionado.

João José era o único que lia correntemente entre eles e, no entanto, só estive na escola ano e meio. Mas o treino diário da leitura despertara completamente sua imaginação e talvez fosse ele o único que tivesse uma certa consciência do heróico das suas vidas 

– Jorge Amado, em capitães da areia

Muito se fala sobre a educação no Brasil. Mais ainda sobre a educação pública. Sobre a universidade pública então, não é preciso nem comentar. A discussão parece unânime: “faltam investimentos para a educação”, “10% do PIB para a educação já!”, como os únicos problema da educação fossem os baixos salários dos professores e a falta de infraestrutura.

O engraçado dessa discussão é que, em nenhum momento, o aluno é citado nessa discussão. O aluno é um agente passivo na educação, ele está lá apenas para observar. Ninguém nunca parou pra pensar que pro aluno alguma coisa deveria mudar pro aluno, ali dentro, dentro de sala de aula, no dia-a-dia da universidade. Por vezes, vejo até gente dizendo que o aluno é o grande culpado da historia! São os alunos que são preguiçosos, os alunos que são vagabundos, os alunos não correm atrás de nada, só dormem na aula, etc…

Mas isso é justo, já que vivemos numa cultura que valoriza e romantiza o sofrimento. O bom é aquilo conquistado contra todas as expectativas, não aquilo que você teve tranquilidade para se concentrar e trabalhar em cima. Sendo assim, fica claro que todos os estudantes são grandes vagabundos, que querem tudo na mão e não se interessam por trabalho duro.

Desnecessário apontar como esse raciocínio é idiota né?

Enquanto houver essa cultura de sofrimento, de adversidades, de “meritocracia conquistada”, não haverá progresso. Ninguém quer facilidade, ninguém quer mamata, só o que a gente quer é condição suficiente pra poder se esforçar em cima, a única dificuldade que queremos é a de desbravar o conhecimento (ou de utilizá-lo para mudar o mundo).

Ninguém quer depender do empenho sexual do cônjuge do professor.

Ninguém quer ser reprovado pra satisfazer o ego de alguém.

Ninguém quer uma nota ruim porque o equipamento da prática é defeituoso.

Ninguém quer estudar uma coisa desnecessária só porque estudaram antes.

Ninguém quer ficar 30 horas semanais dentro de uma sala de aula e não ter energia pra se dedicar o tempo necessário em casa à elas.

Ninguém quer se dedicar exclusivamente à sala de aula e se desligar do mundo.

Só o que a gente quer é decência.

Só o que a gente quer é tempo.

Só o que a gente quer é um tratamento mais humano.

Só o que a gente quer é viver num ambiente de mais cooperação e menos competição.

Só o que a gente quer é que as pessoas entendam que não é porque estudamos em universidades públicas que não temos o direito de reclamar, ou que tenhamos que aceitar quaisquer condições impostas, ou que tenhamos que abdicar de nossas vidas (e sanidade),  só porque estudamos “de graça”.

É só isso.

Um comentário sobre “É só isso

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