A dor e a delícia de ser computeiro

Sempre que alguém me pergunta sobre computação eu respondo: não faça, computação é uma merda.

Mas não me entendam mal, eu amo a computação.

Se você achou essas frases desconexas, você provavelmente não entende nada de amor nem de computação.

eita

Sempre que eu tento escrever um texto sobre o porquê d’eu fazer computação, eu desisto, o texto transpira depressão e cospe raiva. Talvez por que eu escreva ele sempre após um evento traumático (geralmente uma prova ou uma compilação mal sucedida), talvez por que realmente o amor e o ódio estejam numa linha muito tênue (estranho eu lembrar que essa frase vem do mangá dos cavaleiros do zodíaco no qual descrevem a relação entre shina e seiya).

Pra contar esse porquê, é sempre bom fazer um paralelo histórico. Hoje quando eu faço essa análise eu rio bastante das pessoas “indecisas”, geralmente quando se tem oportunidade de se fazer o que quiser, mas o excesso de leite e pêra na alimentação cotidiana faz as pessoas perderem o senso de decência na vida e a capacidade de escolher uma coisa assim, simples. Eu escolhi o que apareceu na frente.

Tinha 14 anos e, como todo mundo que é pobre em cidade pequena, não tinha muita perspectiva do futuro, só vivia um dia de cada vez. Eis que inauguraram a instituição que deu origem a este blog: meu amado IFBA Campus Porto Seguro. Era a primeira vez que uma escola com um ensino decente surgia na cidade, a primeira vez que qualquer um de nós, possivelmente jovem na cidade, tinha contato com ciência de verdade, professores que pesquisavam e tudo mais. O impacto científico foi pífio, mas o impacto social foi tremendo.

Na época, na primeira turma, só tínhamos duas opções de escolha: técnico em informática e processamento de alimentos e bebidas. Escolhi informática mais por não me interessar no outro curso do que por qualquer outra coisa, aliás, meu pai tinha uma metodologia interessante de educação: quanto mais ele restringisse o uso do computador, mais estudaríamos no tempo livre, afinal, antes de 1980 todo mundo era einstein.

Enfim, entrei no curso sem saber porra nenhuma de computador, além de instalar o need for speed. Novamente, lembrar dessa parte me faz rir bastante, porque é rotineiro as pessoas na universidade se dizerem desmotivadas, que as matérias não são contextualizadas e eu penso “Caralho, eu demorei 4 anos de técnico e 3 anos de faculdade pra ter uma matéria de análise de algoritmos, aquieta esse cu aí“. Até começar a ver computação de verdade, deve ter sido lá pro fim do segundo ano/começo do terceiro. Até lá foi um dia após o outro.

Até que chegou um dia em que eu não me enxergava fazendo mais nada a não ser aquilo da minha vida. Não que eu gostasse, não que eu desgostasse, só não fazia sentido ser outra coisa além de computeiro. Não achava que conseguiria passar em nenhuma engenharia clássica (mecânica, elétrica ou civil) e me sentia relativamente confortável sendo computeiro. Prestei engenharia de computação por essas bandas achando que não era uma engenharia concorrida, mas sem grandes esperanças de passar (achei que meu destino era fazer ciência da computação em vitória/ES). Que surpresa eu não tive quando vi que a EnC aqui não só era concorrida como era mais do que as outras engenharias citadas.

Passei, matriculei, cá estou. E continuo achando uma merda.

Quando alguém me pergunta se deve fazer computação, eu prontamente digo: “Não”, mas se a pessoa insiste eu costumo dizer: “Cara, não me entenda mal, eu amo computação, mas se você quer, vá em frente, mas pra cada sorriso que você dá, 2 lágrimas escorrem no teclado, pra cada programa que compila, 10 não vão, pra cada idéia boa que surgir, 1000 idéias ruins vão surgir antes, pra cada coisa legal que você aprende, todo resto é um saco, a glória é ínfima e o estigma é pra sempre. Se você consegue lidar com tudo isso e ainda acordar sorrindo de manhã, se você faz das tripas coração e se você acha que o desafio é mais legal do que a resolução, vá em frente, essa é a carreira ideal”

Aliás, se existisse uma música que sintetiza tudo isso é a seguinte

Onde você é a Miley Cyrus.

E que Nimb role bons dados para você!

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