Ostentação cultural

Faz tempo que essa idéia permeia meus pensamentos, mas nunca tinha conseguido conectar todos os micropensamentos numa única linha de raciocínio. Ainda não consegui, mas talvez esteja na hora de olhar menos para Vinícuis de Morais e mais em Drummond de Andrade.

Quem acompanha o blog desde o começo – se é que ainda tem alguém – vê que eu não falo mais de música como antigamente. Em parte por descobrir que eu não sei nada de música e, possivelmente, não tenho todo esse tesão em música que muita gente – diz que – tem, em parte por que discutir sobre essas coisas é muito chato.

Ou melhor, as pessoas que tentam discutir sobre o assunto são muito chatas.

cagação

Longe de mim querer cercear o gosto alheio ou dizer o que alguém tem de consumir, o que me incomoda é a constante busca pela exposição dos gostos e a eterna luta por sua justificativa.

Para evitar ir direto na ferida, começarei pela tangente.

Já repararam como a fanbase de super heróis entra em colapso a cada adaptação com apelo juvenil que uma série famosa ganha? De certa forma, o próprio Alan Moore já havia percebido isso há tempos, e faço minhas as palavras dele:

(…)Eu odeio super-heróis.(…)

Acho que eles são abominações. Eles não significam mais o que costumavam significar. Eles foram originalmente concebidos por escritores que expandiam ativamente a imaginação de crianças de 9 a 13 anos

Tradução livre por: eu mesmo

O próprio Alan moore, na mesma entrevista, diz que o termo graphic novel é usado, na verdade, por fanboys que precisam, de alguma forma, justificar seu gosto. Ao que parece, o gosto pelo simples prazer é insuficiente, o perigo de cair num estigma de infantilidade ou de baixa capacidade intelectual fala mais alto. O gosto parece ser mais direcionado ao status que o hobby proporciona do que ao prazer gerado por ele. É a ostentação da cultura (guarde esse termo, ele ainda nos será útil).

maconheria gourmet

E o que isso tem a ver com música? Se você, leitor, tiver o mínimo de ozadia no sangue já deve ter percebido.

Todos conhecemos aquela galera chata que está sempre pronto a dizer que tal música é “ruim”, viver reduzindo pessoas ao gosto musical, se recusa a ir num lugar onde só toca “barulho” e coisas do tipo. A galera que só gosta de música “boa”, que toma cerveja pelo rótulo, que não tem nem 30 anos mas não suporta lugares cheios e que acha friends melhor que chaves.

chatice

É engraçado notar que as pessoas “inteligentes”, “com cultura” – chatas – são as primeiras a utilizar a suja e desonesta tática do “vou só aproveitar o que me é favorável”. Se isso fosse feito como forma de punhetação mental, não haveria problema algum (cada um goza com o pau que consegue), o problema é usar isso pra cagar regra no quintal alheio, pra depreciar a forma como cada um se diverte no seu tempo livre.

Sendo assim, me afastei das discussões musicais e abandonei a busca por “coisas boas”. Agora só consumo aquilo que me faz bem. Só ostento cerveja ruim e cachaça barata, só cantarolo letra de arrocha e só respeito o safadão.

É você com seu Led Zeppelin pra lá e eu com meu Tchan pra cá.

E que Nimb role bons dados para você!

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