E se eu te dissesse que

Lá fora também tem essa treta.

Esse texto é dedicado pra a galerinha do “ain vou sair do Brasil porque meu candidato perdeu e nordestinos são um lixo e bolsa família é coisa de pobre e eu quero um iPhone 6 com menos taxas JÁ!!!!” e tudo mais, aproveitando o bonde porque eu sou um oportunista e quero dar pitaco na situação, mesmo não manjando muito. Tamo aqui pra causar mesmo.

Primeiro quero falar de mim. Primeiro eu quero deixar claro que eu tenho a consciência política de um guaxinim. Nunca fui das pessoas mais envolvidas com questões políticas, não sou lá de levantar bandeira de A ou B. Não por que quero pagar de hipster e ficar de fora só observando, ou porque prefiro outras opções além das que existem, já que A e B são ruins demais pra mim, mas por pura preguiça mesmo.

Não sigam meu exemplo.

Se o país fosse feito só de gente como eu, acho que não haveriam eleições. Seria só um bando de gente tocando guitarra, programando e assistindo Scott Pilgrim a cada três meses. Eventualmente saindo às ruas pra buscar suprimentos e lavar roupa. Eleições serviriam só pra decidir se o estoque de Ruffles e bala de maçã-verde no país estariam sendo bem administrados. FELIZMENTE a nação tem pessoas diferentes de mim, com diferentes pensamentos, culturas, etnias, e responsabilidades no sistema. Essas diferenças é que fazem o mundo se desenvolver como tem feito há vários invernos.

Todavia, reconhecer atitudes de racismo e xenofobia no meio desse panavueiro de gente atirando asneira pra todo lado na internet, é algo que eu faço com um pouco mais de apreço. Sendo extremamente maldoso, o mínimo que isso te traz é um pouco de diversão ao ver a idiotice (aparentemente) consciente alheia. Se quiser uma prova de que o que digo é verdade, aqui vai um mini tutorial que até colei em um comentário de post do @agage:

1 – Abra o Twitter;

2 – Digite “nordestinos” na barra de busca;

3 – Sem muito esforço, veja algumas centenas de almas que precisam de mais amor no coração;

Talvez agora a rage tenha até passado, já que todos aqueles que metralharam os meus conterrâneos tão agora mais preocupados com como vão ficar os preços na Black Friday esse ano, e se vai ser possível comprar o iPhone 6 deles. Essa galera é de época assim mesmo.

Ou se você não achar, é porque o próprio Twitter sabe que tweets idiotas como esses merecem ban.

Mas voltando ao tópico inicial, tem uma galerinha aí que acha que no primeiro mundo tudo é lindo. Uma galerinha que acha que o fato de que nesses países o McDonald’s ser considerado comida de pobre, quase todo mundo ter carro e casa boa, gadgets de última geração, bons salários,  boa segurança pública e parques bonitinhos cheios de folhinhas coloridas e paisagens e arco-íris (não sei o plural dessa palavra), garante desenvolvimento humano e um dos princípios mais básicos e promotores de boa convivência: respeito.

E se eu te dissesse que existe racismo fora do Brasil também?

Sim, o mundo fora do Brasil pode ser tão feio quanto o bigode do Michael Cera. E por causa desse mesmo tipo de gente que odeia o nordeste. Só muda o endereço.

Desenvolvimento econômico não significa desenvolvimento humano. Mais cedo esse ano li essa notícia que, resumindo bem porcamente fala sobre Arisa Cox, uma moça negra e de cabelos cacheados que trabalhava em Ottawa e que ao ser promovida a âncora de entretenimento/clima de um jornal foi requisitada a alisar o cabelo para que pudesse apresentar o programa. Arisa, recusou-se a usar o cabelo do jeito que lhe foi pedido e foi informada que se quisesse continuar com o emprego, teria que satisfazer essa condição. Ela então pisou o pé firme. “Meu cabelo – e toda a identidade e valor próprio vinculado a ele – não estava aberto a debate”, ela diz.

Também li uma outra notícia (que não consegui achar link, mas confia em mim, eu sou gente boa e não to espalhando mentiras, eu vi mesmo tá?) de um pessoal mais tradicional – e xenofóbico – espalhando cartazes contra a migração muçulmana pra a região oeste da região metropolitana de Toronto. Me lembro de um dos cartazes conter uma foto de vários muçulmanos e a frase “É isso que você quer para o nosso país?” ou algo do tipo. Os cartazes obviamente foram retirados pelas autoridades.

Sei que não transmiti nem um pouco de credibilidade nessa, mas novamente, vou pedir sua confiança na minha memória de minhoca. Ou você pode tentar olhar no Google também, eu posso não ter usado as palavras certas.

Tem ainda uma terceira notícia que li ontem sobre a Ausma Malik, candidata a school board trustee, o que seria o equivalente à secretaria de educação de Toronto – de acordo com meus 15 segundos de pesquisa no Google; corrija-me se estiver eu estiver errado nessa, por favor. A candidata é muçulmana e usa o hijab – véu utilizado por algumas das mulheres muçulmanas – e sofreu ataques em suas placas de propaganda com dizeres islamofóbicos. Um pessoal chegou até mesmo a imprimir folders contra ela, insinuando que ela seria simpatizante de terroristas, dentre outras coisas. Sites falsos de campanha foram criados para que as pessoas não acessassem seu site real e portanto fossem confundidas. Pessoal é do mal mesmo.

Ausma estudou na University of Toronto, participou de uma cambada de coisa lá, projetos na cidade e tudo mais. Resumindo a ideia: “Estes ataques são agressões covardes a mulheres não-brancas concorrendo a posições de poder na maior cidade do Canadá […]”, nas palavras do autor.

E são apenas alguns exemplos locais que vi nos jornais daqui. Deve ter muito mais por aí. Joga no Google que você vai ver a bagaceira.

O ponto a que quero chegar é que se você acha que sair do Brasil vai te trazer convivência com gente melhor, você terá um mau tempo. Racismo (e me refiro a qualquer outra forma de idiotice similar como xenofobia, homofobia, baiano-do-axé-fobia, seja lá o que for) não é uma coisa só do Brasil, não é coisa de terra subdesenvolvida, não é coisa de país de pobre. Essa praga existe nos EUA, na Europa, e até no Canadá que tem fama de ser bonzinho com todo mundo.

Isso não é sobre lugares, é sobre pessoas. O preconceito que você tem com a galera lá de cima que ouve forró e come vatapá, pode ser o mesmo que não te deixe nem mesmo passar pelos oficiais de imigração na sua tão sonhada Miami.

Os três exemplos que mostrei inicialmente foram de grupos de pessoas sendo idiotas. Pra finalizar, vou deixar contigo esse video de como algumas das pessoas legais daqui são. Mas veja bem: não veja esse video como “nossa, olha como o pessoal é instruído, educado e mente-aberta lá, preciso me mudar pra esse país agora!!11!1!”. Veja como “nossa, olha como eu sou um bosta e deveria ser dessa forma com as pessoas ao meu redor, no meu próprio país. Tenho vergonha de mim e minha mãe deveria me deixar por um mês sem X-box por ser assim”.

Apague a luz quando sair.

Edição: O video está em inglês (AH VÁ), perdoe pela falta de educação. Mas resumindo, trata-se de um experimento social envolvendo dois caras, um deles fingindo ser preconceituoso com o Muçulmano num ponto de ônibus, insinuando que este é terrorista. O pessoal do ponto de ônibus fica grilado com a atitude do acusador e ele até leva um soco.

Um comentário sobre “E se eu te dissesse que

  1. Hahaha. E o mundo parece ter fim, mas é mero ponto de vista. Muitas vezes as religiões estimulam toda essa discriminação, com isso eu fico sem entender o real sentido dessas religioes nao nobres. (Muito bom, li tudo e gostei muito do modo ‘contado’, parabéns pela reflexão)

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