A pequena janela

Antes de qualquer coisa, coloque isso aqui pra tocar enquanto lê. Só pra criar o clima:

Agora continue lendo.

2014-11-20 10.19.49Essa é a janela a qual o título se refere.

Mas voltemos nela depois. Antes quero contar outra história.

Era um fim de semana de novembro ou de algum outro mês de fim de ano que não consigo me lembrar. Eu e uns dos meus broders mais chegados fomos prum rancho em uma cidade próxima à minha. O lugar era incrível, bonito, confortável, daqueles que requeria que você tirasse todos os problemas da cabeça antes de entrar, deixasse-os numa caixa e então os pegasse de volta na saída, quase como um guarda-volumes. Fiz quase isso: guardei meus problemas na entrada mas entrei com um que era grande demais pra ser guardado na portaria.

Eu estava meio que às vésperas de voltar pra a minha cidade e em menos de dois meses eu estaria pisando em outro continente. O meu problema era não conseguir tirar da cabeça o fato de que eu estava deixando para trás minha casa, meus amigos, universidade, costumes, a mina que eu era afim, pra entrar em uma aventura que poderia não ter os resultados que eu esperava. Vir pro Canadá sempre foi um sonho meu, mas quando você vê esse sonho batendo à sua porta e te dizendo “beleza, estou aqui, vamo ou não?”, você meio que hesita. Ou pelo menos foi assim comigo, que sou a pessoa mais insegura e cagona que eu conheço.

Nesse rancho, houve um momento em que eu tava triste pra caramba. Eu já estava começando a sentir saudades da galera, sendo que só ia embora em algumas semanas e ainda tinha todo mundo à minha volta pra sair, conversar, se divertir e etc. Mas quando a data de partida vai chegando perto, é natural sentir que aquela etapa da sua vida vai ter que parar uma hora pra dar espaço a outra; que o seu dia vai ser preenchido com rotinas diferentes, pessoas diferentes, que você espera que sejam tão boas quanto as que você tem no momento. Coisa de gente meio agoniada.

Um ano depois, a mesma merda acontece, quase que na mesma época.

Mas agora eu diria que é um pouquinho pior. Quando eu saí de Uberlândia eu sabia que voltaria pra lá, e que teria a rotina que eu tanto gostava por mais dois ou três anos numa boa. Agora, às vésperas da volta pro Brasil, por mais que eu acredite que há boas chances de voltar pra cá, mesmo que eu volte eu não vou ter as mesmas pessoas comigo. E por mais que esse seja o segundo país que mais gosto no planeta (dos dois nos quais já estive, sendo um deles o Brasil), eu sei que é hora de aceitar que esse momento simplesmente acabou e não tem volta.

Vão vir outros, eu sei. Outras etapas de vida, com outros amigos incríveis, outros ambientes profissionais incríveis, em cidades incríveis, outros relacionamentos incríveis, outras vidas diferentes, eu diria. Mas é simplesmente impossível prestar atenção só nisso e não sentir falta dessa galera/ambiente.

O Canadá pra mim foi um ano de aprendizado, e nem de longe isso significa puramente acadêmico. Eu cresci como pessoa, como profissional, como músico, como ser humano. Eu aprendi um pouco com cada uma das pessoas que tive contato, tanto das que tive a honra de morar com, quanto de outras com as quais não tive contato diário, mas que sempre estavam por aí nos rolês.

Caramba, deixaram cebolas aqui no quarto. Malditos bêbados.

Quero deixar cinco observações mais breves do que o dia canadense aqui:

Com um deles aprendi a fazer o que eu tenho que fazer. Ainda continuo tentando colocar isso em prática, mas eu invejo o comprometimento dele. É algo que perdi há anos, e que vou ter incentivo pra recuperar graças a ele. Toda vez que me vejo desmotivado quanto à minha profissão, eu lembro desse cara e de como eu deveria ser quanto a ela. Sempre foi um exemplo pra todos nós por ter soluções práticas e sabedoria paterna que deixa todos maravilhados. Desculpa pelos incômodos com a guitarra, e valeu pelos passeios de bike no verão. A trilha sonora do Guardiões da Galáxia nunca mais será a mesma.

Com o outro, o maior aprendizado foi saber ser uma pessoa “de boa”. Aceitar as pessoas do jeito que são — sim, eu tinha vários preconceitos ao chegar aqui, que simplesmente evaporaram. Eu era um merda, mas to me esforçando. Ele me ensinou que Dubstep pode ser bom também, e que 4 colheres de chá podem render até 20 copos, e que ninguém é má pessoa por gostar de chá assim. Me ensinou que dar a sua cama pra alguém que não tá se sentindo bem porque bebeu demais é uma boa atitude, por mais que antes eu acreditasse que o sujeito deveria simplesmente se virar. Desculpe por todas as vezes que eu não fui na academia, e pelas vezes que eu coloquei a colher no pote de chá depois de já estar molhada. Espero que isso não prejudique o desempenho do time.

O outro me ensinou a pensar nos outros antes de mim. Algo que com todos esses anos, eu como cristão deveria ter aprendido, mas por ser um bosta não o fiz. O mais interessante sobre esse cara é que os fatos de ele dormir 12 horas por dia e ser fazer jus ao seu estereótipo regional, de não ligar pra a consistência de suas meias, de não ingerir alimentos vegetais e de chegar 1 hora atrasado para todos os compromissos são totalmente esquecidos pela sua simples camaradagem, pelo jeito como ele não pensa duas vezes em ceder a própria vantagem em favor de outro. Foi mal por todas as vezes que eu quebrei o ritmo e te atrapalhei no baixo cara, prometo treinar quando voltar pro Brasil. Obrigado por todas as partidas (vitórias e derrotas).

Este outro caboco me ensinou determinação. Em alguns meses o vi passar de um completo esquisito que mal conseguia andar seguindo um ritmo, pra nível avançado em forró. A dedicação invejável e foco num objetivo que o levam a não parar algo até que esteja terminado são coisas que vou levar pra mim. Sempre invejei sua capacidade no inglês e essa inveja me motivou a melhorar o meu, por mais que eu ainda fale como youtube nos anos 90 – travando pra caramba. Desculpa por pegar tanto no seu pé. Obrigado pelo Attack on Titan e pelo Stuck In The Sound e por ser o único que entende as minhas referências toscas a Scott Pilgrim.

Com este último, aprendi a ter pulso, a fazer as coisas acontecerem, a saber falar e ser convincente por mais que o que você fale não faça sentido algum. Essa habilidade vai ser útil incontáveis vezes, considerando o quão ruim eu sempre fui em me comunicar. Ele, por ter vindo de um lugar meio remoto, confirmou o que eu já sabia sobre as suas origens não serem lá fator determinante no que você se torna no fim. Eu costumava dizer que “não importa de onde você vem, mas pra onde você vai”, quando me me perguntavam sobre a cidade onde nasci (Eunápolis, cidade que até hoje não consigo gostar muito), e ele só ratificou o que eu tinha em mente. Foi provavelmente o cara que eu mais enchi o saco. Desculpe por isso. Obrigado pelo Pink Floyd, pelos blues, pelo esforço no vocal, pelos babas de fim de tarde no campo da escola vizinha, pelo Netflix.

São incontáveis as lições, os pedidos de desculpa e os agradecimentos que eu tenho que fazer, mas quis colocar só esses aqui em foco porque sou preguiçoso escrevendo – e vocês também lendo. A todos os outros que não mencionei, mas que estiveram presentes na minha vida de alguma maneira, seja fazendo mousse, falando sobre falafel, jogando frisbee/futebol apelosamente, dançando samba/bolero comigo, fazendo minha fantasia de Halloween, cedendo fotos 3×4 estranhas, emprestando a guitarra, fazendo gifs da minha pessoa, descobrindo parentescos distantes, gritando “Brittney” na rua, ensinando técnicas mineiras avançadas de galanteio, sendo babacas, filhos da p**a, bogaloos (não sei escrever até hoje) ou conterrâneos de faculdade, ou simplesmente enfeiando o ambiente e não jogando as cartas que eu mandei no Hearthstone, saibam que também vou lembrar de vocês e também vou sentir saudades.

Mas porque eu falei de janela no começo? Vou resumir com essa imagem.

sadness

Look, it’s Canada outside.

Eu definitivamente vou sentir falta dessa vista estreita todos os dias.

E chega desse texto. Tenho umas cebolas pra jogar fora.

——

In case there’s any of the non-Brazilian friends reading through Google Translator – we never know – , those of you who are bichinhas, or who take us to thanksgiving dinner at the cost of laughing really loud at our bad English, or like bubble tea, or the ancient art of birdwatching, or who play soccer better than the Brazilians, or those who like my hair but refuse to admit it, please know that I’ll also miss you a lot. You all made me feel warm and wanted in this cold freezer country. Thanks for being part of the most amazing year of my life.

Digaê

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