Peculiaridades universitárias #2 – República

Quem faz universidade, principalmente as mais tradicionais, conhece o modus operandi das emissoras de TV nessa época: mostrar o mesmo VT que vem mostrando há 10 anos, com a eterna presença do japonês da medicina da USP, com a adição de algum caso extremo recente.

O objetivo é um só: demonizar todo e qualquer trote universitário, amedrontar as mães, fazer com que os bixos entre cada vez mais assustados na universidade e elevar os veteranos ao status de belzebu na terra™. Não que eu vá recusar esse título, me esforço muito pra alcançá-lo perante a família Brasileira, mas esperava obtê-lo por meios mais escusos, não por cortar cabelo e mandar os bixos ajoelharem.

Isso porque eu só falei dos trotes, que qualquer veterano de apartamento aplica. Se você colocar no meio que é trote de república, aí já entramos em outro patamar. Já passamos de jogar ácido nas pessoas pra jogar ácido nas pessoas enquanto enche a cara, mata alguma aula, cola em alguma prova e vive dentro da putaria.

Mas existe sempre o lado que a mídia não conta, que a galera que frequenta repúblicas uma vez a cada quinze dias não conta, que seu parente que morou em república (daqui em diante denominada rep) não conta, e que, assim como a maioria das coisas, é o lado certo. Existe toda uma rotina, todo um ecossistema, todo um universo desconhecido por qualquer um que não more em rep (e isso inclui os próprios universitários).

1 – Estamos aqui por que queremos

Num mundo onde finalmente vemos um movimento no qual as minorias começam a se empoderar e incomodar setores mais retrógrados da sociedade – que insistem em enxergar uma sociedade “igual” e “meritocrática” -, é normal que algumas confusões sejam feitas.

Muito embora a relação calouro-veterano seja uma forma de opressão, que por vezes extrapola os limites do ridículo, moramos em rep porque, para nós, isso tudo é uma brincadeira divertidíssima. Gostamos de ajoelhar quando um veterano dinossauro chega pra passar o fim de semana, gostamos de lamber o chão da rep pra demonstrar nosso amor pela causa.

Em suma: vivemos assim porque gostamos.

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2 – Nossa bagunça é organizada

Não tem jeito, não existe essa de república “organizada”, pelo menos não no conceito maternal de organização. Sempre vai ter uma meia na sala, uma bicicleta na cozinha e alguém dormindo em cada cômodo da casa. Sempre vai ter alguma louça suja na pia, algum banheiro com higiene duvidosa, alguma roupa suja esquecida por aí.

Mas sempre sabemos exatamente onde está cada coisa.

A questão da desordem é que é muito mais fácil – e amigável – mantê-la do que manter a arrumação, por n motivos: chegar bêbado em casa, passar 15 horas seguidas na faculdade, varar uma noite estudando e não ter forças pra levantar da cama nas próximas horas, etc.

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3 – Farra e putaria são excessão

Pra quem vê de fora, parece que rep de estudante se resume a essas duas coisas: farra e putaria.

Não vou negar que isso existe de monte, mas tudo isso é excessão. O dia-a-dia de uma república vai muito além de encher a cara – de cachaça ou de maconha – e transar todos os dias.

Eu inclusive iria mais longe e diria que na verdade, morar em rep é um artifício pra não enlouquecer. A graduação é cruel, principalmente quando falamos de um bando de moleques que até semana passada tinham que pedir pra ir no banheiro e agora estão tendo que conviver longe dos pais, numa cidade estranha, com pessoas que não conhece.

O dia-a-dia de se morar em república está muito mais ligado a morar numa comunidade, dividir a casa com pessoas diferentes e aprender a lidar com as diferenças do que exatamente ficar chapado todos os dias.

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Porém…

4 – Farra e putaria são reais

Eu gostava de resumir a graduação a “um ensino médio onde as pessoas transam mais”. Não que isso seja errado, mas eu diria impreciso. É isso e muito mais. 

Uma das melhores partes de morar em rep é descobrir que você é o único responsável por você mesmo. O que significa que, se você estiver de saco cheio, pode muito bem ir numa festa de quarta feira e chegar em casa as 4 da manhã, acordar pra ir na aula no dia seguinte como se nada tivesse acontecido (e como se a carteira fosse um colchão).

Além do que, não existe um motivo muito forte motivando a farra&putaria, basta uma pequena energia de ativação pra que tudo comece.

Me lembro de um churrasco que começou lá em casa após um jogo completamente aleatório na copa apenas porque sim. Apareceram umas 50 pessoas nessa brincadeira. Ou da vez que um churrasquinho a toa acabou numa cachoeira a 15km da cidade as 2 da manhã.

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5 – Acima de tudo, reina a camaradagem

Se o ensino médio é uma época cruel e a graduação é um ensino médio com mais sexo, não é difícil perceber que a graduação pode ser traumática para alguns.

E sendo assim, batemos de novo na tecla do “estamos aqui porque queremos”. Moramos em rep porque na rep encontramos pessoas que partilham de nossos anseios, angústias e dificuldades, alegrias e que ao mesmo tempo são pessoas completamente diferentes de nós.

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E porque é dahora pra caralho.

E que nimb role bons dados para você!

3 comentários sobre “Peculiaridades universitárias #2 – República

  1. “Se você colocar no meio que é trote de república, aí já entramos em outro patamar. Já passamos de jogar ácido nas pessoas pra jogar ácido nas pessoas enquanto enche a cara, mata alguma aula, cola em alguma prova e vive dentro da putaria.”

    Cara, me explica esse parágrafo? Ja li 10 vezes, trote de fazer a pessoa colar na prova? Huahua

    Alias, sempre leio, muito bom o blog

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