Peculiaridades universitárias #4 – Festas

Há um tempo atrás, na ilha do sol, citei um trecho do capitães da areia que discorria sobre a consciência do heróico no dia-a-dia. É estranho porque eu mesmo nunca parei pra pensar que talvez haja um quê de heróico e um quê de romance na vida universitária. Talvez essa falta de sono e esses porres homéricos tenham uma aura mística para alguém que veja de fora, estando apenas esperando para serem narrados em uma ilíada moderna ou coisa parecida.

Eis que eu vejo um texto da vice sobre uma festa em São Paulo. Como um dos próprios organizadores diz:

A ideia das festas sempre foi focada em bagunçar! Diversão sem limites, sem aquela coisa de “ir pra festa e ficar fazendo carão”, segurando o drink e dando passinho prum lado e pro outro. A nossa ideia sempre foi criar uma experiência completa, algo que fosse memorável e realmente divertido pra quem fosse na festa.

Apesar de desconfiar das fotos da festa, que desde aquele vírus que você recebeu por e-mail em 2001 sempre ficaram ótimas, parece ter ocorrido exatamente como descrito, com muita bagunça e diversão sem limites.

Sabemos que esse tipo de festa foge do lugar-comum, da galerinha de polo com um combo de uísque e redbull dançando com a mão aberta pra cima, fechando os olhos e mordendo o lábio, ou posando do camarote. Porém, isso me fez pensar também no quão insólitas são as festas universitárias e no quão icônicas são as festas de república.

10003787_1039258499422436_9128715810084823841_oComo o parquinho gosta de citar, eu me envolvo em tudo na graduação, o que significa organizar várias festas também (nos tempos áureos era algo em torno de 5 por ano). Sendo assim, sou extremamente suspeito pra para elogiar festas universitárias, já que eu levanto uma grana legal com elas para qualquer grupo que eu faça parte. Também é compicado falar por todas as repúblicas e todas as cidades universitárias do Brasil. Cada lugar tem seu charme, seus maneirismos, suas tradições e seu modus operandi do regaço. Tudo o que eu falo aqui vem da minha experiência e do meu aprendizado com São Carlos em relação ao resto do estado.

Sim, São Carlos é a Tijuana Brasileira, não há como negar. Sempre que eu vejo reportagens falando sobre boas festas de cidade grande eu me lembro da nossa relação com pessoas de São Paulo em nos inter* da vida, onde a galera de lá é visivelmente mais recatada, tímida e com receio de se jogar no rolê, enquanto a galera de São Carlos cai na farra como se não houvesse o amanhã.

De fato, uma festa universitária é um ambiente libertador. Apesar do problema extremamente recorrente do machismo, da hegemonia branca das pessoas frequentadoras do ambiente universitário, a festa é realmente onde as diferenças se minimizam e você pode entrar em uma profunda comunham com o seu eu – bêbado – interior.
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Isso se intensifica quando falamos de festas em repúblicas por um fator extremamente democratizador: elas são baratas. A economia gerada pela falta de burocracia governamental (alvará, inspeção sanitária, etc.) é sempre repassada ao consumidor final, fazendo com que não seja extremamente caro encher a cara e você possa encontrar os mais diversos espécimes da raça humana oriundos das mais diversas classes sociais.

Além disso, todo mundo faz merda vez ou outra, tornando inviável a sensação de vexame que costumávamos ter após noites alcoolizados em nossa cidade natal.

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Porém, meu ponto favorito de festas universitárias (em especial festas de repúblicas) é um conceito, bem popular por aqui, ainda desconhecido no resto do mundo: o trash.

Para quem vê de longe, trash é o desapego da moral e dos bons costumes, é simplesmente não ligar para o que os outros pensam e ser ridículo sem medo. Mas não se engane, o trash vai muito além disso.

Ser trash envolve um esforço pessoal muito grande para quebrar as barreiras do ridículo e do desapego. É não apenas ir no rolê mas vivê-lo como se ele fosse a finalidade dele mesmo. Ser trash é um estado de espírito, onde cobranças, expectativas, opinião alheia e vergonha não existem, só existe o rolê pelo rolê inserido nele mesmo.

A diversão é apenas um resultado disso tudo.

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Isso é açaí

No fim das contas, talvez o que podemos tirar disso tudo é que o mundo precisa de mais São Carlos, de menos cobrança, menos stress, menos julgamento e mais diversão, mais gente doida, mais guerra de açaí no fim da balada pra ser um lugar melhor.

E que nimb role bons dados para vocês!

*Inter: torneios inter-algumacoisa (ex.: intercomp), que envolvem várias faculdades do estado em competições esportivas, sempre devidamente regadas a loucura e insanidade

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