Carta para o eu-do-futuro

E aí, vacilão.

Este aqui é o seu eu-do-passado, te dando dois dedos de conselhos que podem ser pra bem ou pra mal. Você, daqui 10 anos lendo isso, pode se maravilhar ou se decepcionar, assim como o eu-de-agora se decepciona com o seu eu-de-5-anos atrás (15 anos no total, tendo a sua data como referência, no caso).

Quero te falar sobre algumas coisas que tão acontecendo por aqui, . Você mora num apartamento no qual caso a janela fique aberta por muito tempo, entram pequenos insetos em busca da luz que a sua lâmpada fluorescente emana. Você comprou um abajur pra tentar reduzir este problema – e também pra reduzir a aparência de escritório do seu quarto -, mas vive esquecendo de utilizá-lo. Você continua preferindo utilizar chinelos a sapatos.

Enquanto escreve esse texto, você ouve uma playlist de música indie feita por um amigo de outrora, que te lembra de sua vida há 2 anos. Você usa o Spotify pra tal. Passou a usá-lo depois da promoção de 3 meses por $1,99 (não lembro exatamente se era esse o valor), migrando do antigo sistema de torrents + Windows Media Player. Ainda é difícil te fazer ouvir música nova. Você ainda ouve muito Angra como de costume, mas passou a ouvir mais pop, hip-hop, música brasileira, e não é mais aquele adolescente de mente fechada de 5 anos atrás. Sua música favorita ainda é Sultans of Swing. O que você anda ouvindo no futuro?

Você ainda curte usar regatas enquanto está em casa. É muito fã de relógios, embora as vezes o tire pra jogar ou escrever textos. Você possui apenas um terno, mas não cuida muito bem dele. Também pudera, não tens muitas oportunidades de utilizá-lo. Há pouco tempo você tinha poucas camisetas, mas acabou comprando muitas nas últimas compras de fim de ano e agora tem camisetas demais. Você tem preguiça de lavar roupas. Essa era sua única tarefa do dia de hoje e você não a fez. Que vergonha.

Você perdeu o gosto por cozinhar depois das últimas vezes nas quais você ora chegava muito próximo de colocar fogo na casa, ora fazia comidas que faziam as pessoas passar mal, exceto você. Algumas de suas panelas também não contribuem. Você come açaí quase todo dia, mas tem feito corridas o suficiente pra compensar o ganho de gordura. Parabéns nesse aspecto, e espero que em 10 anos você não tenha desistido dos esportes e realmente colocado em prática o seu plano de crescer uma barriga aos 30. Se desistiu, lembre-se que aqui no passado, apesar de gastar tempo se exercitando, podia desfrutar de qualquer junk food que quisesse. Isso te traz momentos de muita alegria.

Em certos aspectos, você ainda é bastante confrontado. Gasta muito tempo pensando sobre questões sociais durante as refeições, perguntando-se se o Capitalismo realmente compensa, se você não tem sido preconceituoso ou insensível com as pessoas à sua volta. Durante o banho, costuma se questionar por que o universo é tão absurdamente grande, por que você é tão pequeno e breve comparado a ele, e se realmente vale à pena continuar contribuindo ao INSS sendo que muito em breve sua existência vai ser esquecida.

Aliás, estas questões espaciais te preocupam bastante – o velho incômodo de ter nascido tarde demais pra a exploração do planeta e cedo demais pra a exploração espacial. Me diz você, aí no futuro: já viu os primeiros humanos chegarem em marte? Como é? Caso já tenha acontecido, deve ter sido um evento e tanto e o mundo deve estar orgulhoso de si. Por aqui, você ainda relembra o pouco que leu do Guia do Mochileiro, das aulas de física, e dos artigos picados que você lê aqui e ali na internet, e fica se questionando quanto o sentido de nossas existências. Por enquanto, você ainda não consegue se engajar em leituras de grande porte – acredita que já faz dois anos que você não terminou de ler nem o último livro dos Jogos Vorazes? Espero que você tenha consertado isso aí no futuro (tanto em frequência quanto em qualidade de leitura).

Você ainda tem muitos hobbies, muitas maneiras de se expressar. A maioria das pessoas te acha sem o que fazer. Tendo a concordar. Mas de certa forma desenhar, tocar, escrever e arriscar composições justificam o fato de você não ter terminado de ver Breaking Bad ou Game of Thrones. Você, como de costume, utiliza estes passatempos artísticos como forma de se expressar e descarregar um pouco as ideias, e também como de praxe, depois de ter muita coisa na cabeça deixou a escrita como último recurso – o que é extremamente melhor do que o que você costumava usar há 5 anos atrás: seu Facebook. A não ser que tenhas uma boa razão, espero que não tenhas abandonado nenhum destes costumes. Eles te distraem e te impedem de ficar sozinho na sua cabeça – e sabemos que isso não é lá muito bom.

Apesar da certa monotonia das férias, você ainda consegue ser criativo com coisas corriqueiras. Foi bom ter aprendido isso vendo The Office. Apesar de ter vontade de explorar florestas na China, de ver o pôr do sol em Vancouver, de ver castelos na Alemanha, de conhecer as terras do antigo império Inca, você ainda consegue se divertir muito bem com post-its e uma caneta, ou os bonecos da sua mesa. E isso, meu caro eu-do-futuro, é algo que eu sinceramente espero que você não tenha esquecido. Caso contrário sua ambição e vontade de fazer coisas extraordinárias podem ter te consumido.

Você trabalha como desenvolvedor. Tem plena ciência de que é uma posição temporária até se formar e fazer coisas de valor e de impacto. Você espera ou ter a sua empresa ou trabalhar pra algum dos grandes caras, o que é até meio que comum a todos à sua volta. Você quer andar por aí usando ternos, fazendo contatos, fazendo as pessoas rirem de suas piadas em palestras, inspirando gente, contando sua história de sucesso, ensinando-lhes macetes e truques de como se dar bem na vida. Um dos seus maiores medos atualmente é estagnar e não conseguir nada disso.

Já são 22h e você ainda não jantou. Você tem dificuldades de se ajustar com seu relógio biológico, mesmo tendo a obrigação diária para com o trabalho. Você e o seu eu-da-manhã, brigam constantemente quanto a acordos firmados antes de dormir. Aparentemente o seu eu-da-manhã não cumpre sua parte e você acaba sempre ficando mais tempo na cama do que devia. Espero que vocês tenham se acertado no futuro. Vocês perdem muito tempo na vida por conta destas desavenças.

Finalizando, eu-do-futuro, espero que você esteja bem. Espero que você olhe pra trás e não se envergonhe de muita coisa – porque meu amigo, esse seu eu-de-5-anos-atrás… vou te contar viu… – e que as coisas das quais você se envergonhe sejam no mínimo justificáveis por falta de conhecimento ou experiência. Espero que você tenha ao menos tentado ingerir menos refrigerante, e espero que você seja mais apreciador de Jazz e de filmes melhores, sem se esquecer aqueles passos básicos do bom e velho forró que você sabe. Espero que você tenha encontrado mais respostas pra as questões da vida, ou melhor ainda, que tenha encontrado mais perguntas.

E acima de tudo, espero que você tenha um guarda-roupas. Não aguento mais procurar o outro pé da meia na mala e só achar o pé correspondente depois de 4 meias achadas.

P.S.: Caso viagem no tempo se torne possível no futuro, volte e me impeça de escrever este texto. Melancolia demais. Traga Ruffles.

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