Como eu aprendi a tocar instrumentos

Era uma vez um garoto galego que morava no interior da Bahia, em Coroa Vermelha. Este garoto, por volta dos seus 13 anos de idade costumava gastar seu tempo com jogos eletrônicos, partidas de futebol no chão de terra batida ou no regionalmente famoso Campo da Mussurunga, ou só tentando descobrir o motivo de tudo existir e o porquê de as pessoas fazerem faculdades e de preferirem ketchup a maionese na maioria dos casos.

Este garoto, que tinha pai músico, irmão músico e avô músico, recusava-se a seguir a tradição familiar de agradar os ouvidos alheios com ondas mecânicas. Apesar de já ter tentado algumas vezes tocar flauta, com bastante frequência sentia fome ao experimentar o instrumento, causada pelo esforço em soprá-lo. Decidiu por falta de paciência abandonar as tentativas uma vez que já havia se encontrado em seu tipo de arte preferido, que eram, no momento, copiar traços desenhados de personagens de desenhos japoneses que assistia. Sua cota de arte já estava completa.

Este garoto era eu. E eu, como sendo o diferentão da família, o mangaka do nordeste, o ilustrador aborígene, não dei muita importância para música, o que deixava meu pai levemente desapontado, por mais que ele nunca tivesse se manifestado ou nem expressado nada do tipo, já que eu já tinha achado meu passatempo. Eu estava enganado se o achava que lápis e papel seriam suficientes pra me ocupar.

Um dia, meu pai me ligou em casa, falando sobre um rapaz que iria oferecer aulas de bateria na igreja. Cansado de não compreender música e de já ter tentado sem sucesso, recusei. Minha mãe, porém, depois de ver a cagada que eu estava a fazer, disse enquanto lavava roupa: “vai menino, vai ser bom”. Pensei duas vezes, liguei de volta aceitando.

A partir daí, depois de três aulas, comecei a ter gosto pela coisa, e em menos de um mês minha mãe já havia provavelmente se arrependido da decisão ao ter que aguentar batuques por toda a casa com todo tipo de objeto possível, em todo tipo de objeto possível. É o sacrifício materno: os ouvidos dela pela minha satisfação pessoal.

giphy1

3 semanas depois.

Alguns meses depois, depois de pegar de volta um violão que estava emprestado, meu pai o deixou lá em casa num canto, e por curiosidade, comecei a arriscar umas notas. Revistinhas de cifras foram e vieram, dezenas de kilobits transferidos e enviados em conteúdos de cifras online e em pouco tempo eu já estava conquistando corações ao som de músicas como as do Wando. Ou pelo menos eu achava que estava.

wando

Uma das primeiras músicas que aprendi foi Fogo e Paixão do Wando. Também não sei por que.

Alguns anos depois resolvi experimentar a guitarra. A igreja era um ambiente favorável a isso: a falta de músicos as vezes me incentivava a passar para outros instrumentos e consequentemente me interessar por eles. Por volta de 2011 eu já sabia um tanto razoável de baixo e começava a aprender guitarra, que toco até hoje em dia, alternando entre ela e a bateria. Até hoje não sei dizer qual dos dois é o meu preferido. Basicamente a regra que uso é: se estou com raiva ou agitado (e ninguém dormindo em casa), bateria. Caso contrário: guitarra.

De início, a ideia tocar violão me chamava atenção pelo fato de chamar a atenção do público feminino: sempre fui um cabeçudo esquisito sem muito papo e sem muita habilidade pra nada – nem pro futebol que eu jogava todo dia. Talvez aprender uns acordes em sequência pudesse me ajudar a ganhar ao menos uns olhares e eventualmente, quem sabe, segurar as mãos de alguma garota algum dia. Eram muitos os planos.

Mas algum tempo depois percebi que ninguém valia aquele “sacrifício” de horas e horas gastas por dia em acostumar os dedos e membros a fazerem movimentos comandados pelo cérebro. Não que eu não gostasse de pessoas me ouvindo, mas aprendi que a música era algo muito mais pra mim mesmo do que pros outros. Até hoje, o melhor momento da minha semana costuma ser quando fecho a porta do meu quarto e ligo o amplificador da guitarra ou ponho os fones da bateria, e viajo por quatro horas seguidas no meu próprio mundo de covers e improvisos. Imagino que seja como usar drogas, mas mais saudável.

Essa lição aliás, tendi a aprender também com o desenho, com a escrita, e com qualquer coisa que eu faço. Sendo uma pessoa que sempre teve problemas com a autoestima e que tem a autoconfiança de uma escova de dentes, a música me deu este presente: me ensinou a gostar de mim, a gostar de passar tempo comigo mesmo, o que se espalhou pelas outras áreas da minha vida. Mesmo não sendo bom, ao sentar no banco de uma bateria ou ao aumentar o volume da guitarra, naquele momento em específico, eu me sinto como se não precisasse da aprovação de ninguém, como se tivesse controle da situação, como se aquilo fosse minha praia, por pior que eu toque. Se eu sentisse metade disso em programação, hoje você não estaria lendo um texto meu, mas ouvindo um TED talk meu.

FEELING.

Mas voltando ao como, caso você tenha chegado aqui atrás de uma fórmula mágica pra se tornar o próximo Hendrix, eu costumo pensar na receita como sendo um par bem simples composto pelos dois seguintes ingredientes:

Persistência: Aquilo que vai te fazer querer chegar em casa todos os dias e tocar o instrumento mesmo depois de ter produzido pouco no trabalho, derramado café no relatório do colega do lado, atropelado um gato e ter corrido da máfia peruana contrabandista de chaveiros por três horas e 17 minutos até conseguir escapar.

Paciência: Aquilo que vai te impedir de quebrar o seu instrumento após a terceira tentativa de fazer o acorde/sequencia/solo/seja lá o que for.

Decepcionante né? Parece até texto do Business Insider. Mas é a verdade.

Caso você consiga manter este par ativo no processo de aprendizagem, você pode ser acusado de ter dom para a música. Esse texto, porém, explica muito bem o que é esse tal dom: nada mais do que interesse e paciência pelo aprendizado de determinada habilidade, que faz com que as pessoas com tais motivações sejam focadas e aprendam mais rápido, não por terem alguma “pré-disposição” ou “talento natural” para tal, mas por simplesmente se dedicarem mais do que a maioria à atividade. Desde então eu parei de acreditar que tinha dom para a música e simplesmente me lembrei de quantas horas gastei vendo videos no youtube e aprendendo cifras, repetindo músicas incontáveis vezes, por incontáveis dias, agregando ódio dos meus colegas de quarto/mãe pelo incômodo auditivo.

giphy

Eu no meu quarto praticando.

Um exemplo disso é Sultans of Swing, que provavelmente é a minha música favorita. Foram praticamente 7 anos desde que comecei a tocar, até que pudesse executá-la completamente na guitarra, desde aprendendo o mais básico sobre tempos musicais, notas, acordes, técnicas de fingerstyle, até conseguir capturar o sentimento da música, numa série de aprendizados que me levaram a (quase) conseguir tocá-la. É claro que após aprender músicas complexas, a curva de aprendizado das anteriores se torna menor, mas no meu caso pode-se dizer que os 7 anos são válidos, visto que foi o tempo que demorou até que eu aprendesse tudo o que precisava pra a música.

O que não quer dizer que esse foi o tempo que demorei pra aprender cada música. Aprendi outras em meses, semanas, algumas até num dia só de treino, outras ainda não dei conta de aprender completamente. Vai do tanto de esforço aplicado.

Vale lembrar que não sou músico profissional, nem manjo de quase nada de teoria musical. Tudo o que aprendi (que aliás foi de maneira muito prática e considerada no meio musical como errada), foi só o suficiente pra eu mesmo me sentir legal tocando e ter certa diversão na informalidade do meu quarto, fazer alguns gigs com amigos vez ou outra, ter umas bandas cover, mas nada próximo do que reais profissionais da música recomendam ou fazem – aprendendo as bases da teoria musical, entrando em conservatórios/universidades, etc. Se você acha que está no mesmo nível de bostisse musical que eu, então siga meus conselhos.

Tive auxílio de várias ferramentas no meu aprendizado. Nunca fiz aulas pois por bastante tempo achei que fosse uma febre passageira, algo do qual eu desistiria depois de encontrar grandes desafios ou depois que achasse algo mais interessante pra fazer. Mas basicamente, o YouTube foi o meu maior professor. Video aulas, backing tracks de guitarra ou de bateria (que aliás não só te ajudam a praticar músicas no tempo certo, mas também te dão o sentimento de estar tocando a música muito próximo da original), Songsterr, técnicas aprendidas olhando outros tocando, etc. Ainda sou um bosta tocando, mas pelo menos esses anos de esforço já me renderam bons momentos.

559188_390767981030823_1523067885_n

Tipo esse, em que eu fui baterista substituto surpresa. Foi louco esse role. Não parece, mas sou eu.

Por fim, não tem como escapar. Se você realmente quer aprender a tocar, pare de ler esse texto, pegue o instrumento e vá praticar. Amanhã também. E depois, e depois… Basicamente, por mais satirizada que seja a máxima por parte do pessoal niilista, neste caso, eu particularmente a considero bem válida: “Repetition is the key to success.”

Digaê

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s