Descargas da Madrugada #1

Aparentemente há algo muito estranho ocorrendo. Não dá pra colocar muito bem em palavras, porque agora só o que há são um bando de ideias confusas e conflitantes, que se alternam em momentos aleatórios. De alguma forma escrever ajuda a organizá-las, mesmo que seja pra eu mesmo.

Uma das coisas preocupantes sobre mim agora é essa constante dicotomia – lembrei dessa palavra a partir do comentário de um amigo em um post de Facebook – entre ter uma vida “medíocre” ou, sendo mais eufemista pra evitar ofensas “comum”, e fazer algo grande e significativo, dar algo pro mundo pra que eu seja lembrado.

Por estar meio desligado do meu lado religioso, tendo a pensar que a única herança que se pode deixar nesse mundo é a sua imagem e algumas palavras escritas (já que aparentemente a tecnologia da escrita não mais se esvairá da humanidade por um bom tempo), de modo que as pessoas do futuro possam usar um mecanismo de busca e com apenas a combinação de caracteres que me identifica nominalmente elas possam ter acesso a retratos de minha face em preto e branco e em fundo preto, com alguma citação minha escrito em Times New Roman itálico, provavelmente tamanho 18 ao lado.

Enquanto escrevo o texto pra dar aquele flush na minha cabeça e deixar salvo aqui algumas coisas, me lembro dos meus trabalhos. Isso, achei como conectar as coisas. Tenho trabalhos pra fazer. Esses trabalhos são elementos do que se tem por vida “comum”. Prazos, entregas, resultados a serem mostrados, comprovações arbitrárias de que o conteúdo a mim falado em horas e horas de aulas expositivas entrou na minha cabeça. Processo de aprendizagem, chamam isso. Esse texto é justamente uma tentativa inconsciente de me afastar do processo de aprendizado. Colocar coisa nova no cérebro sempre dá certo trabalho

Daí voltando ao assunto, enquanto ouço esse Pink Floyd que me lembra que o tempo é um recurso escasso e que passa à medida em que bato teclas pra produzir caracteres digitais, a outra face da moeda me aguarda: o desafio de ser mediano. De aplicar o meu esforço em não morrer de tédio em um emprego regular, com fins de semana regulares, consumindo coisas regulares, sedando-me com obras cinematográficas, uma eventual música nova do artista famosinho, um livro regular que todo mundo leu e eu nunca li, gastando tempo em exercícios na tentativa de evitar gastá-lo em hospitais e tentar melhorar a auto estima.

Neste momento, me vêem à cabeça várias coisas clichês, mas que conseguem fazer uma bagunça considerável. Clube da Luta. Mr. Robot. O estranho barulho que algum inseto faz atrás de mim ao se chocar contra a parede. Contas. O universo e o tanto que eu não sei sobre ele, mesmo já existindo muito conhecimento por aí. Os meus óculos de grau que precisam ser substituídos. O legado que vou deixar. Nascemos mesmo só pra comer aquele sanduíche esporádico num fim de semana? Nascemos pra viver esperando o breve alívio que o fim de semana proporciona?

Talvez nos tornamos muito auto-conscientes.

Ao mesmo tempo me dou conta de que nada do que falo aqui é novo. Matrix já mostrou isso. The Dark Side of The Moon já nos mostrou isso. Que mesmo os que sucedem e deixam um “legado”, são peças do sistema. Peças maiores, externas, que chamam a atenção pela forma. Mas peças.

Sendo um pouco mais otimista, eu diria que dá pra se ver coisas boas em ambas as abordagens. Dá pra se ver uma boa vida sendo um comum. The Office já me ensinou isso.

Dá pra se ter uma vida comum e ser feliz. Dá pra se inventar pegadinhas toda semana no trabalho pra entreter os outros colegas que também são parte do sistema, que provavelmente também se questionam as mesmas coisas, mas que provavelmente estão três vezes mais cansados pelas longas jornadas. Dá pra se inventar uma viagem pra uma cidade próxima num fim de semana. Dá pra se achar uma receita nova pra se tentar fazer com a namorada.

Assim como também dá pra ser infeliz e solitário viajando o mundo fazendo shows. Dá pra ser vazio falando a centenas de pessoas e inspirando-as a abrirem seu próprio negócio, a aprenderem a programar. Dá pra sentir uma parte de si faltando mesmo sendo internacionalmente reconhecido pela sua arte. Nunca fiz nenhuma dessas coisas, mas as os vícios e suicídios estão aí pra provar que essa abordagem também existe.

O ponto é que esse texto não tem ponto nenhum. Ainda to me decidindo sobre ficar de boa e aproveitar esse momento breve de existência sem preocupações e com uma vida regular – que aliás é uma maneira muito mais efetiva de se gastar o pouco tempo que se tem de vida em relação à idade do universo – e abdicar de algumas coisas pra conseguir ter um busto meu em frente a algum prédio famoso. Imagino que talvez dê trabalho esculpir meu cabelo.

A decisão ainda está em processo. Não dá pra saber se vou fazer um ou outro. Se vou até conseguir os dois. Ou nenhum. Meu nariz não tá muito bom.

E você? Pensa sobre essas coisas também? Me diz aí o que passa na sua cabeça.

Falou.

Ah, vai uma musiquinha aí procê pensar e ficar loucão também e ver que quase tudo com o que a gente interage, tá debaixo da mesma bola branca – tecnicamente ela tá orbitando a gente, mas você entendeu:

All that you touch
All that you see
All that you taste
All you feel.

All that you love
All that you hate
All you distrust
All you save.

All that you give
All that you deal
All that you buy,
beg, borrow or steal.

All you create
All you destroy
All that you do
All that you say.

All that you eat
everyone you meet
All that you slight
everyone you fight.

All that is now
All that is gone
All that’s to come
and everything under the sun is in tune
but the sun is eclipsed by the moon.

“There’s no dark side of the moon really
Matter of fact it’s all dark.”

Pink Floyd – Eclipse

Digaê

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s